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Cibridismo

No dia 30 de novembro de 2017, eu e a Giselle Beiguelman fomos convidados pelo capítulo brasileiro da bienal internacional The Wrong, Homeostase, a conversar sobre o que seria arte pós-internet lá no Museu da Imagem e do Som de São Paulo. A Giselle fez uma pesquisa sobre o que seria o Cibridismo, o estado de estar entre os mundos virtuais e físicos, antes mesmo do termo pós-internet ser cunhado. Essa pesquisa foi a base para o estudo que fiz para a Funarte — e que ganhou o prêmio de uma das melhores pesquisas sobre arte e/ou economia da arte concedido pela Fundação Bienal de São Paulo — sobre a produção em arte e tecnologia na região Sudeste, A Arte do Cibridismo.

Abaixo, segue o texto na íntegra (sem edição ou atualização) que apresentei sobre o que seria essa terminologia e qual o contexto em que está inserida.

A Internet Deu Ruim

A Internet Deu Ruim

Antes de entrar especificamente no que é arte pós-internet, é importante analisarmos dois cenários: como a arte abordou a tecnologia durante os anos — incluindo a internet e a exploração tecnológica em si — e o que é a internet hoje em dia.

Nos primórdios dos dois lados, havia a exaltação e a euforia de que tanto a tecnologia quanto um mundo conectado era a solução de todos os nossos problemas. “Uau, agora nem precisamos fazer tarefas chatas e repetitivas. É só automatizar o processo que, tchãn, resolvido! Terei muito mais tempo livre.” Do outro lado, “hoje, se pode mandar mensagens para alguém do outro lado do mundo em poucos segundos. Todo mundo poderá dividir e distribuir seu conhecimento de forma democrática e gratuita! Que demais!!”. Daí a gente pensa no Fordismo e na concentração da internet em grandes monopólios privados e vemos que, na verdade, a história não aconteceu muito bem como a gente imaginava.

E a plena verdade a qual nós temos que nos acostumar é que: a internet deu ruim.

E deu ruim MESMO.

Eu vou entrar nesses meandros aos poucos para vocês verem como é verdade que a internet deu ruim. Mas, primeiro, vamos passar rapidamente por alguns experimentos históricos que desenvolviam arte tendo como meio a tecnologia.

 

Otimismo Cruel

 

Todos nós sabemos como o determinismo tecnológico provoca euforia em nossos corações. Sempre, SEMPRE, há a próxima tecnologia que nos salvará de todos os pecados e erros que cometemos no passado, ou que, então, nos fará ter muito mais tempo para o lazer. A gente sempre acredita nisso — e isso até tem um nome além do determinismo tecnológico, “otimismo cruel”, teorizado por Lauren Berlant para tentar explicar nossa cegueira principalmente em relação ao capitalismo, no qual nós sempre acreditamos que se trabalharmos duro, poderemos ascender socialmente e mudarmos a estrutura em que vivemos. Para ela, nós possuímos uma relação afetiva com o presente, sem tentarmos entender as reais causas e consequências do que está ao nosso redor. É quase a mesma coisa que acontece em relação à tecnologia: o salvador chegará amanhã. Eu não vou detalhar mais aprofundadamente o pensamento de Berlant, mas é importante frisar o nome que ela dá para esse sentimento de relação com o nosso modelo sócio-econômico: otimismo cruel.

 

Experiments in Art and Technology (EAT)

 

Quando vemos grupos incipientes como o EAT (Experiments in Art and Technology), em Nova York, ou as Novas Tendências, na então Iugoslávia, além do pioneirismo de ambos os grupos, se vê também o entusiasmo das pessoas participantes em relação à sua produção. Todos mostram e discutem o que eles fizeram é o “novo”, “o futuro”, o que será a realidade não só desses pequenos grupos, mas também da sociedade inteira — os Novas Tendências, inclusive, para alguns pesquisadores como Armin Medosch, podem ser considerados como precursores do pensamento livre, do copyleft, e das comunidades de software livre (e o mais engraçado é que um nomes mais relevantes do grupo é um pintor brasileiro, Almir Mavignier!). Só que, além do plano das ideias, há o plano que muitos de nós esquecemos que é o da realidade.

 

Realidade

 

Durante essas experimentações com arte e tecnologia, o que quase ninguém fala ou se lembra é que nenhuma obra funcionava por muito tempo. Mesmo na abertura das exposições, que mostravam quanto a tecnologia era, vamos dizer, interessante e que mudaria radicalmente nossas vidas, diversas obras ou não estavam funcionando, ou funcionavam por algumas horas e… já era. Alguém aqui já visitou o FILE?! Mesmo até em outras exposições icônicas, como foi o caso de “Software”, no Jewish Museum, ou “The Machine as Seen in The End of the Mechanical Age”, no MoMA, diversas obras simplesmente não funcionavam.

 

Determinismo

 

Quando o espectador — isso estamos falando da década de 1960, então, entenda como a audiência estava maravilhada com a possibilidade de deslumbrar o que se via apenas pelos Jetsons — se deparava com a obra, ela simplesmente não existia. E estamos falando de artistas que marcaram a história da arte: John Cage, Vito Acconci, Hans Haacke, Joseph Kosuth, Nam June Paik, Laurence Weiner, Robert Rauschenberg, etc.

 

O erro

 

Tudo isso para falar que o erro não é algo do acaso. Nos processos tecnológicos, ele é uma constante e não uma exceção. Tanto o é que, mais para frente, veremos diversas explorações artísticas no que se denominou de Glitch Art (ou a arte da falha, do erro). O que eu quero demonstrar com esses exemplos é que nós temos a tendência de ficar tão excitados com as tecnologias e acreditarmos tão cegamente que elas são a nossa salvação, que deixamos de lado e ignoramos os erros, o que deu errado, o que não era para ter acontecido… mas aconteceu.

A internet deu errado.

 

Tim Berners-Lee

 

Até o tão otimista e idealista Tim Berners Lee, em uma entrevista recente ao The Guardian, já diz que as coisas não parecem mais promissoras quanto eram quando ele criou o WWW. Diz ele, “Nós temos esses anúncios obscuros que me miram e me manipulam e, aí, somem, porque eu não consigo marcá-los. Isso não é democracia — isso coloca quem é selecionado nas mãos das empresas mais manipuladoras que temos por aí”. E ele continua, “nós estamos tão acostumados com esses sistemas de manipulação que as pessoas acreditam que é apenas como a internet funciona. Nós precisamos pensar em como ela poderia ser”. Resumindo: deu errado.

O que ele está falando é que a internet hoje está longe de ser o espaço democrático que foi tão almejado em seu início. Com o passar dos anos e a evolução tecnológica, grandes empresas descobriram meios de compartimentar conteúdo — como os apps, que são bolhas dentro da rede já que não dividem e nem indexam seus conteúdos –, processar essas informações e vendê-las a outras empresas como publicidade. Aliás, hoje, as grandes corporações da internet tem o grosso de seu lucro provindo de nada menos do que publicidade.

 

Neutralidade da rede

 

Logo, toda a experiência do usuário está centrada em grandes marcas, que resolvem suas demandas por vídeos, áudios, socialização e comunicação. Qual serviço usar, no fim, parece ser uma escolha, já que você teria total liberdade para não usá-los. Mas, como a centralização é tão forte, redes sociais viraram plataformas de notícias e informação; broadcasting ou video on demand são as novas televisões; e música só se escuta por serviços pagos. Não tem muito como escapar. Tanto o é que as empresas de telecomunicação sabem disso e criam lobbies para quebrar a neutralidade da rede em vários países, como Portugal, Espanha e, pelo o que tudo indica, Estados Unidos. Sem a neutralidade, as operadoras ficam livres para cobrar mais pelo acesso a essas grandes plataformas, já que consomem mais a banda de sua conexão. Ou reduzir o tráfego em outras que você ainda não pagou. No fim, isso centralizará ainda mais o uso que se tem na internet e impedirá com novas plataformas, com serviços menos mainstream, sejam fáceis de ser achados pelo usuário comum.

O que fazer, então?

 

Google Will Eat Itself

 

Em 2005, Paolo Cirio, Alessandro Ludovico e urbermorgen criaram a instalação “Google Will Eat Itself”. A obra, que questionava a popularização do mecanismo de busca, consistia em um sistema que usa adwords em sites fantasmas que eram acessados por bots que clicavam nos anúncios gerados pela empresa de tecnologia. O lucro que os cliques gerava era depositado em uma empresa, a GTTP Ltd., criada especificamente para receber essa verba, que era usada para comprar ações do Google. O intuito, dessa forma, era conseguir, com o passar do tempo, ser sócio majoritário e transformar o Google em uma empresa pública controlada pelos usuários. Além de uma ameaça de processo por parte da filial da empresa na Alemanha, obviamente os artistas não conseguiram comprar a gigante da tecnologia.

 

Aceleracionismo

 

Mas essa obra, além de questionar a parte do monopólio nos serviços online, também possui uma abordagem muito similar à encontrada no manifesto Aceleracionista, escrito por Alex Williams e Nick Srnicek em 2013 (quase 10 anos depois da obra). Segundo eles, “Aceleracionistas querem libertar as forças produtivas latentes. Nesse projeto, a plataforma material do neoliberalismo não precisa ser destruída. Precisa ser reaproveitada para fins comuns. A infraestrutura existente não é um estágio capitalista a ser esmagado, mas um trampolim para lançar o pós-capitalismo.” Em outras palavras, o que os aceleracionistas pregam é utilizar ferramentas presentes no novo mundo neoliberal para ir contra o próprio capitalismo, da mesma forma que Cirio, Ludovico e ubermorgen propuseram com “Google Will Eat Itself”. Usar a relação capitalista para destruir o próprio capitalismo.

Além da questão da supremacia das grandes companhias, há também a questão de como a relevância é interpretada pelos algoritmos proprietários desses serviços. Os feeds das redes sociais, por exemplo, não são mostrados em tempo real, ou seja, quando o seu amigo ou a pessoa que você segue publica. Mas, sim, são organizados conforme o algoritmo acredita ser relevante para você naquele exato minuto, seja de 1 minuto atrás ou dois dias.

 

NOT Harlem Shake

 

Há uns anos, por exemplo, o mundo viu as plataformas de vídeos e as redes sociais serem tomadas por interpretações do “Harlem Shake”. Diversos grupos, principalmente brancos do hemisfério norte, gravaram vídeos com danças frenéticas e, muitas vezes, até erotizadas reinterpretando a dança que surgiu no Harlem, em Nova York. Os mecanismos de busca mostravam milhões de exemplos dessas reinterpretações, mas alguém sabe de onde isso veio e como originou? Naquela época, era quase impossível encontrar vídeos que demonstravam a dança de comemoração comum em jogos de basquete no bairro negro de Nova York naquela época. Mas as versões com pessoas brancas estavam a dois cliques de distância. Isso fez com que a plataforma na época chamada de Policy Mic, focada exclusivamente nos millenials, publicasse um artigo sobre o que eles chamaram de “Internet Gentrification”, ou Gentrificação na Internet. De acordo com o artigo, a cultura negra diversas vezes na história influenciou a cultura branca. Mas, em alguns casos, “a cultura branca exagera. Esse ato de exagerar pode ser referenciado como gentrificação cultural” — eu chamo de apropriação mesmo, mas tudo bem… — “na qual os originais são expulsos de seus estilos/modos por causa da magnitude de pessoas copiando seus estilos de vida, que faz com que [as pessoas de onde essa manifestação nasceu] não veja isso como algo mais interessante de se fazer”.

 

REAL Harlem Shake

 

A apropriação cultural é algo que tem sido constantemente discutido, desde as obras de Picasso até casos em que brancos se apropriam de significantes da cultura negra como o caso dos turbantes. Mas o que não se é discutido é como o algoritmo por trás das plataformas de busca acabam contribuindo para essa exclusão cultural. No fim, para se encontrar o real Harlem Shake, aquele feito para comemorar partidas de basquete, naquela época era uma tarefa hercúlea, em que se precisava chegar à página 12, 13, 14 dos resultados para conseguir ver a origem de tudo isso. Já nos primeiros resultados, porém, se encontravam os vídeos dos apropriadores, dos brancos. Logo, uma pessoa desavisada acreditaria que, pela quantidade e pela “relevância”, eram os brancos que criaram aquela determinada manifestação.

 

Grosse Fatigue

 

Essa forma de organizar o conteúdo na internet, em que prevalece o que alguns determinam como o mais importante, no entanto, não é realidade apenas no meio online. A nossa história é baseada também na eleição por alguns do que é a narrativa oficial e, inclusive, do que deve ser preservado para a prosperidade. Isso é algo bem visível no trabalho “Grosse Fatigue”, em que Camille Henrot tenta mostrar os diferentes mitos e histórias envolvendo a criação do mundo e a evolução das espécies. Em um bombardeio de imagens capturadas no Google Images e nas coleções do Smithsonian, um narrador integrante do The Last Poets (considerado como os precursores do hip-hop e originários do Harlem) lê trechos dos mitos e lendas que Henrot encontrou em sua pesquisa no Smithsonian em estilo hip-hop, demonstrando uma certa violência e gravidade na forma como organizamos as nossas histórias e como publicizamos isso de forma a não considerar outras perspectivas importantes. Como ela diz em uma entrevista, “no caso da cultura ocidental comparado às culturas tradicionais, nós podemos falar de violência, principalmente na forma como objetos são reunidos e coletados. Isso claramente inspirou uma das perspectivas do meu filme: o fato de ver que a maior coleção do Museu de História Natural é a coleção antropológica, e em particular a coleção de objetos nativo-americanos, acumulado durante as guerras.” Ou seja, a história nativa de uma localidade entra como antropologia, e não como história oficial de um lugar. No fim, na internet, acabamos, por outros meios, replicando problemas e situações até desonestas que acontecem no mundo físico, como o caso do que é relevante para a sociedade. A tão almejada democratização, como se alardeou nos primórdios da rede, está longe de ser uma realidade. Até o contrário: o que vemos é a concentração cada vez maior nas mãos de um número muito pequeno de serviços.

 

 

Esses serviços, no entanto, teoricamente — já que não dá para comprovar, uma vez que o código deles é fechado — se baseiam em nossa navegação para considerar o que é o conteúdo mais relevante. Aliás, não só na nossa navegação, mas em como usamos o telefone e até o que falamos perto do aparelho. Quantas vezes você viu o post de alguém assustado que apareceu uma propaganda de algo que a pessoa apenas falou há menos de 1 minuto? Na teoria, é o que falamos, o que fazemos, o que procuramos que gera a relevância. Logo, é como se nós mesmos fomentassemos e criássemos bolhas de interesse que apenas demonstram aquilo que já estamos acostumados — o que é o mesmo que dizer em outras palavras que reafirmamos e replicamos a cultura hegemônica em tudo que fazemos.

Mas esse uso tem um outro lado muito pior, que é a questão dos metadados que deixamos por aí enquanto estamos livremente navegando pela internet. Em um dos episódios da terceira temporada de Mr Robot, o protagonista Elliot está a revirar o lixo de sua irmã em busca de alguma informação importante sobre ela. Ele diz: “Metadados: a história por trás dos dados. Conseguir informações é uma coisa, mas saber como ela foi criada, onde e por quem pode ser muito esclarecedor. (…) Na maioria das fotos que as pessoas postam no Instagram ou Facebook, elas não sabem que elas acabaram de dar para qualquer rede social o modelo de sua câmera, de seu telefone, seu nome, e sua localização. Tudo escondido dentro dos metadados da fotografia.” E são esses dados que as plataformas usam para direcionar os anúncios para audiências específicas que as empresas escolhem. Então, no fim, no modelo econômico que vivemos atualmente, quem possui mais dados sobre as pessoas, mais poderoso fica.

 

 

Em julho de 2010, a revista inglesa The Economist, publicou um artigo com o título “Social Networks and Statehood: The Future Is Another Country” (ou Redes Sociais e Soberania: O futuro é um outro país) em que descrevia como os milhões de usuários da rede social Facebook naquela época geravam tanto poder ao serviço quanto ao de um estado-nação. O começo do artigo descreve o encontro virtual histórico entre o recém-eleito primeiro ministro britânico, David Cameron, e o dono da rede social, Mark Zuckerberg. O intuito do chat era pegar dicas sobre a responsabilidade que é administrar milhões de vidas. Em vez de pedir conselhos a algum outro chefe de estado ou mesmo consultar sua equipe dentro de sua administração, Cameron foi pedir conselhos ao soberano Zuckerberg. Como diz o artigo: “De algum modo, parece absurdo chamar o Facebook de um estado e o Sr. Zuckerberg seu governador. O Facebook não tem nenhuma terra para proteger; nenhuma polícia para assegurar as leis e a ordem; não possui sujeitos conectados por uma clara compilação de direitos, obrigações e sinais culturais. Comparada com uma cidadania de um país, ser membro [da rede social] é facilmente adquirido e renunciado. Nem o chefe do Facebook e seus executivos dependem diretamente da aprovação de um ‘eleitorado’ que pode destituí-lo. Tecnicamente, as únicas pessoas para quem eles precisam reportar são seus acionistas. Mas muitos analistas da web detectam sim características de um país no Facebook. ‘É uma ferramenta que permite com que pessoas se juntem e controlem seus próprios destinos, muito como uma nação-estado’, diz David Post, professor de direito da Temple University. Se essa descrição soa como uma lisonja para os ‘grupos’ do Facebook (muitas vezes reunindo pessoas com opiniões lunáticas e aversas), então é melhor lembrar a clássica definição de uma nação-estado moderna. Como Benedict Anderson, um cientista político, coloca, tais políticas são ‘comunidades imaginárias’ que cada pessoa se sente conectada com milhões de outros anônimos cidadãos. Em séculos passados, as pessoas se espelhavam em seus reis ou bispos; mas em tempos de alfabetização massiva e impressão em línguas vernáculas, como Anderson argumenta, conexões horizontais importam mais.”

 

 

Cinco anos mais tarde, em maio de 2015, a Carta Capital publica o artigo “O Golpe do Facebook”, que começa com a descrição da última Cúpula das Américas no Panamá, em que, como descreve a revista, “o jovem executivo [Zuckerberg] (30 anos) circulou pela reunião dos chefes de Estado como se fosse mais um deles ou pelo menos como um presidente do Banco Mundial, não como mais um participante do fórum empresarial paralelo. Chegou a invadir, por engano, uma reunião entre os presidentes do Panamá e República Dominicana.” Isso aconteceu simultaneamente ao acordo feito entre o empresário e a ex-presidente eleita Dilma Rousseff para criar um protótipo na comunidade de Heliópolis, em São Paulo, do Internet.org. A diferença entre 2010 e 2015 é que a rede passou de “apenas” 500 milhões de usuários para 1,4 bilhão, e como pontua a revista, “uma nação (…) maior do que a China”. Neste ano, a rede social já passou os 2 bilhões de usuários — e o Brasil era o terceiro colocado no número de usuários, com 139 milhões.

 

 

Paralelamente a isso, em 2013, o presidente executivo do Google, Eric Schmidt, junto com o diretor do Google Ideas, Jared Cohen, publicam um livro intitulado “The New Digital Age: Transforming Nations, Businesses, and Our Lives” (ou A Nova Era Digital: Transformando Nações, Negócios e Nossas Vidas, em tradução livre). Nele, há uma pequena seção chamada “Virtual Statehood” (ou Soberania Virtual), em que os autores teorizam a chegada de uma cidadania totalmente virtual. Como eles dizem, “a saber, nós acreditamos que é possível que estados virtuais sejam criados e que sacudirão o cenário online dos Estados físicos no futuro”. Para argumentar por tal estado, Schmidt e Cohen usam como exemplo a população curda, que não possui representação fidedigna de seu território, mas possui experiência de quase autonomia, como o Curdistão iraquiano. Como explicam os autores: “perseguidos tanto no mundo físico quanto no virtual, grupos que não possuem soberania formal podem escolher emulá-la online. Enquanto não tão legítimo quanto ou tão útil como uma atual soberania, a oportunidade de estabelecer uma soberania virtual pode provar ser, no melhor cenário, um passo significativo para uma soberania oficial, ou no pior cenário, um agravamento que pode levar os dois lados a um confuso conflito civil”.

 

Cidadania Virtual

 

Mais adiante, Schimidt e Cohen argumentam que os dados dos cidadãos desta soberania virtual podem ser usados para beneficiá-los quando houver algum conflito entre partes. Ou seja, se os curdos estiverem passando por ataques, bullying ou espionagem virtuais, as informações de que quem possui ou está conectado a esta cidadania podem ajudá-los a receber apoio tanto virtual quanto físico (sejam de entidades governamentais quanto privadas). E por fim, eles decretam: “Quão bem sucedidas essas reivindicações de soberania virtual serão (o que constituiria sucesso, no final?) ainda há de ser visto, mas o fato de que isso será factível diz algo significativo sobre a difusão de poder estatal em uma era digital.”

 

Drones

 

Continuando na parte do poder das empresas de tecnologia, em 2013 a Amazon veio com uma ideia brilhante: fazer entregas em praticamente tempo real por meio de drones. O anúncio foi feito pelo CEO da empresa e o atualmente homem mais rico do mundo, Jeff Bezos, durante um programa “60 Minutes”. Nele, o empresário afirma que, na verdade, o serviço só poderia estar disponível dois anos mais tarde. Mas daí fica a pergunta: por que fazer o anúncio tão cedo, se nem a empresa tinha a tecnologia disponível para tanto? Porque um ano antes, o Congresso norte-americano promulgou uma lei em que estimava que a regulação para o que eles chamam de unmanned aerial vehicles (UAV) ou unmanned aircraft systems (UAS) — no fim, os dois são drones — fosse feita até setembro de 2015, coincidentemente a mesma data que Bezos previa para o seu serviço de entrega, o Prime Air. Hoje a gente já sabe que, na verdade, o processo vai demorar muito mais do que a lei ou o CEO da Amazon previram. Mas o que é importante ressaltar é que, com o anúncio mesmo que precoce e com os planos da empresa publicizados, toda a discussão da regulação de drones no espaço aéreo vão levar em conta a própria logística de entrega da empresa. Não à toa que, logo após o anúncio, a gigante articulou diversas vezes com o órgão regulamentador aéreo norte-americano para mostrar seus testes. Não conseguiram, mas conseguiram espaço no Reino Unido para realizar testes e pautar toda a discussão.

 

 

Tanto o é que, um ano mais tarde, em 2016, eles finalmente conseguiram mostrar os protótipos de como funcionaria o sistema e pautar a mudança da regulação para que contemplasse drones sem estar ao alcance dos olhos do “piloto”. E, agora, em novembro de 2017, sob a administração Trump e seguindo conselhos da Casa Branca, a Federação de Aviação do país liberou os testes com drones para delivery, passando a responsabilidade aos Estados e Municípios de todos os testes que sejam feitos em seu território. Agora, quando se vê a patente da empresa para o Prime Air, se vê que além da entrega, os drones podem também “espionar” a casa dos consumidores, analisando por exemplo se as telhas do telhado precisam de conserto ou se o jardim precisa de fertilizantes. Assim, na próxima vez que o consumidor abrir as redes ou mesmo o site da loja, haverá anúncios direcionados para esses problemas do dia-a-dia. Para quê metadados se agora se pode consultar in loco?

 

HOW NOT TO BE SEEN: A FUCKING DIDACTIC EDUCATIONAL .MOV FILE

 

Aparentemente, o único meio para se evitar essa constante vigilância parece ser ficar invisível ou desaparecer do mapa. Tudo o que fazemos parece deixar rastros, migalhas, que são exploradas para fins que pouco sabemos ou temos qualquer controle. Nessa perspectiva de desaparecer, a artista Hito Steyerl, criou o vídeo “How Not to be Seen: A Fucking Didactic Educational .MOV File” em que, copiando uma esquete de Monty Python, ela discute, ironicamente, diversas formas para poder desaparecer considerando as tecnologias digitais e sua proliferação nos nossos dias. Camuflagem, viver em uma comunidade fechada (como os tão populares condomínios fechados aqui em São Paulo) ou em uma área militar (alguém já passou ali pela Vila Mariana?) são algumas das possibilidades que a artista mostra, mas a minha preferida é: ficar menor do que um pixel. De acordo com ela, as imagens aéreas, sejam de satélite ou de drones, são calibradas por meio de áreas construídas ao redor do mundo para ajustar a definição e a resolução das imagens. No vídeo (que está disponível online no site da Art Forum), ela visita um desses lugares, na Califórnia, para mostrar que é sim possível ficar invisível para as câmeras. Esse ponto de calibração que vocês vêem na tela é um antigo, que já foi abandonado. Quando se busca pelo assunto na internet, é possível encontar *diversos* lugares com configurações similares, seja nos Estados Unidos, Índia e até na China. Eles possuem diversas formas e formatos também, dependendo do tipo de câmera que precisa ser calibrada. Mas, ainda segundo Hito, hoje se adota um mais simples, com 3 quadrados, sendo dois brancos e um preto. Cada um representa o tamanho de um pixel na imagem digital. E, seguindo a lógica de Hito, se eu ficar menor do que um pixel, eu ficarei invisível para as câmeras! Essas pessoas com as caixas na cabeça estão tentando fazer exatamente isso…

Mas, no fim, o que tudo isso tem a ver com arte pós-internet?

É importante entender que pós-internet é apenas um termo entre tantos outros que já foram usados para descrever quase o mesmo princípio, porém por pesquisas diferentes (como é o caso de Cibridismo que a Gisele teorizou e que eu usei para embasar uma pesquisa sobre produção em arte e tecnologia no Sudeste para a Funarte): a interferência do mundo online no mundo offline, ou a quebra de uma barreira que separava os dois mundos. Não à toa que os geeks são os moderninhos de hoje em dia… Mas, enfim, a produção artística e crítica com essa nomenclatura se propõem a não ficar em um dos dois lados (se você ainda pensa dessa forma, em que cada um fica de um lado), mas sim considerar as interferências de um no outro. Um termo que eu gosto mais do que usar o prefixo “pós” é o usado por Cory Arcangel (aliás, um dos artistas referências para esse termo): “internet aware”, ou consciente da internet. Ele explica melhor que a produção com esse foco mostra as mudanças e influências pelas quais nossas culturas passaram com o mundo conectado. Uma produção que mostra essas influências, as critica e mostra novos modos de as perceber.

 

Afrofuturismo

 

A questão, porém, é que essas influências não são algo novo, e nem específico à democratização do acesso e das tecnologias que vemos hoje. Muito antes disso, na década de 1960 e 1970, por exemplo, se podia ver artistas que consideravam os princípios das tecnologias, da ficção científica, para explicar questões identitárias, como o grande Sun Ra e sua orquestra. Ele era uma loucura, e misturava extraterrestres com cultura egípcia, além de vestimentas futuristas e muitos sintetizadores. Ele foi um dos alicerces para que o surgiria depois, na década de 1990, o que se chama de Afrofuturismo, que utiliza da cultura tecnológica (muito semelhante ao “consciente da internet” que o Arcangel fala) para criticar os problemas e dilemas vividos pelas comunidades negras.

 

 

Alguém aqui já o viu o videoclipe “Many Moons”, da Janelle Monae? Então, nele, ela simula um leilão para a venda de andróides, que no caso são todos com sua fisionomia, uma clara alusão à venda de escravos, que são forçados a fazer trabalhos repetitivos a mando de um senhor. Muito semelhante a um andróide.

 

Xenofeminsmo

 

A questão identitária — que, necessariamente, envolve a cultura e suas modificações — não só é abordada pelas comunidades negras, mas também para exemplificar uma nova forma de se abordar o feminismo considerando a evolução tecnológica. O coletivo Laboria Cuboniks criou um manifesto chamado Xenofeminismo em que clama por uma nova abordagem na luta pela igualdade de gêneros considerando as ferramentas hoje disponíveis. Como elas falam, “O nosso é um mundo em vertigem. É um mundo invadido por mediações tecnológicas, que entrelaçam nossas vidas diárias de maneira abstrata, virtual e complexa. XF constrói um feminismo adaptado a essas realidades: um feminismo de inteligência, escala e visão sem precedentes; um futuro no qual a realização da justiça de gênero e da emancipação feminista contribua a uma política universalista montada a partir das necessidades de cada pessoa, independentemente de sua raça, habilidade, posição econômica ou posição geográfica. Não mais repetição sem futuro na espiral do capitalismo, não mais submissão à monotonia do trabalho, seja produtivo ou reprodutivo, não mais coisificação do natural mascarado como crítica. Nosso futuro requer uma despetrificação. XF não é uma oferta de revolução, senão uma aposta sobre o longo termo da história, que exige imaginação, destreza e persistência…” Para elas, nós sempre estivemos em um estado de alienação e não será hoje que conseguiremos sair dele, por isso, se deve usar o que nos deixa alienados para que possamos ter novos mundos em um futuro próximo.

 

 

Aliás, é justamente esse estado de alienação, hiperatividade e conectividade que é tema das obras de Ryan Trecartin. Em suas instalações, se vê vídeos que retratam pessoas que parecem estar sob efeito de esteróides ou drogas mais pesadas, porque estão forçando e elevando à máxima potência como adolescentes, por exemplo, conversam e tratam uns aos outros. Eu tive a oportunidade de trabalhar um pouco com Trecartin durante a pesquisa para a última trienal do New Museum e, realmente, os vídeos fazem jus ao artista.

Eu vou finalizar por aqui, porque acho que essa imagem do Trecartin diz muito sobre nossa contemporaneidade, mas ressalto o meu argumento que a internet deu ruim e que temos que pensar em novos meios, novas formas de usar a estrutura que temos disponível hoje para nos organizar de forma diferente. No mês passado, aqui no MIS mesmo, eu participei da Temporada de Projetos aqui do Paço das Artes com o Laboratório Gráfico Desviante, e nele a gente resolveu não usar a internet para streaming ou divulgação dos temas que debatíamos, mas sim criar uma rede local, que só era acessada por quem estava no lugar, para organizar as referências que pesquisavamos e que nossos convidados traziam. Cada vez mais se vê iniciativas que desistiram da internet como ela é hoje e que tentam propor algo menor, entre pares, usando criptografia para que não seja qualquer um (como uma empresa) que tenha acesso àquilo que se quer divulgar. O pós-internet, a meu ver, seria algo que abandonasse tudo o que a gente vê hoje e propusesse uma nova forma de usar as tecnologias vigentes.

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Desculpe-nos, mas este texto esta apenas disponível em English.

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Alexander Galloway, professor da NYU e autor de livros como Protocolo e The Interface Effect, dará um curso na The Public School sobre a não-filosofia e os conceitos do filósofo francês Laruelle.

O próximo livro de Galloway será sobre o autor e como suas teorias se conectam com o digital.

O curso é aberto, gratuito, e pode ser acompanhado de qualquer parte do mundo. Não conta como créditos e nem há certificado de conclusão.

Infelizmente, o curso é só em inglês.

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Parece que, cada vez mais, o Brasil está se distanciando do dever de proteger e garantir os direitos humanos. A maior e grande prova desta situação é a eleição do pastor Marco Feliciano (PSC-SP) para o cargo de presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. O fato de ele ser um pastor não é problema (afinal, a história está aí para dar vários exemplos de líderes religiosos que ajudaram a preservar os direitos inalienáveis dos seres humanos). O que destrói qualquer possibilidade de garantia de direitos às minorais são suas falas e crenças: “Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é a polemica. Não sejam irresponsáveis twitters rsss” ou “A podridão dos sentimentos Dos homoafetivos levam ao ódio, ao crime, a rejeição.“.

Essa situação pode ter ofuscado uma outra decisão que não é menos preocupante. De acordo com o blog de Felipe Patury na Revista Época “uma decisão liminar da Justiça comum de Brasília determinou que o Google retire do ar vídeos e textos de blogs hospedados no portal com informações consideradas ofensivas a deputados”. Ou seja, se algum deputado considerar que este post é ofensivo ao pastor Marco Feliciano, por exemplo, ele não poderá ser listado nos resultados dos mecanismos de busca. Com esta decisão, a Justiça – que deveria garantir os direitos e não excluí-los – determina a censura online.

A decisão é extremamente grave. Ninguém mais poderá ter a livre expressão em relação às pessoas que governam o país. A determinação sobre o que é ofensivo cai em uma subjetividade sem precedentes. Apontar que um deputado é homofóbico é ofensivo? Acusá-lo de ser racista (o que é um crime respaldado por lei) é ofensivo? Qual é o parâmetro? E quem determina o que pode ou não ser publicado?

A Justiça, neste caso, de acordo ainda com o blog, está “beneficiando” o deputado Antonhy Garotinho (PR-RJ), que tinha 11 vídeos no YouTube relacionados a ele. Na verdade, a Justiça não está beneficiando ninguém. Ela está impondo uma censura sem nem ao menos tentar esconder, indo contra ao artigo 5º da Constituição Federal:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;
XIV – é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional;
XLI – a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais;
XLII – a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei;

E por aí vai. Do jeito que a decisão foi estabelecida, há a sensação de que a Justiça não é mais tão cega quanto sua Ideia mítica. Hoje, no Brasil, ela beneficia parlamentares em detrimento do restante da sociedade. O importante é garantir o poder a poucos, enquanto minorias são esquecidas e liberdades são proibidas.

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Foi viral. Em pouco tempo, milhares(ões?) de vídeos dominaram o YouTube com versões do que seria uma dança característica de um bairro de Nova Iorque, o Harlem. A paródia dos passos, que surgiram em uma quadra de basquete do bairro, ganhou tantas versões e tamanha proporção que o original ficou esquecido em algum lugar da memória.

O artigo “Harlem Shake Video: How Internet Gentrification Ruined the Dance” narra como a gigantesca quantidade de novos vídeos promoveu o que se chama “gentrificação online”. Enquanto a gentrificação em espaços físicos é a troca da classe mais pobre pela classe média, aqui é uma gentrificação cultural promovida por meios virais online.

O vídeo acima é uma amostra sobre como os moradores do Harlem, bairro que sofre um processo de gentrificação pesado graças às expansões da Universidade de Columbia e políticas públicas que promovem a “luxorização” de Nova Iorque, receberam as interpretações. As derivações chegaram a tal ponto que se tornou uma ofensa ao que era originalmente. O Harlem Shake, então, perde o seu sentido e se transforma em apenas uma piada dentro de uma cultura branca.

O que era algo característico de uma região, de uma cultura específica, se perde pela interpretação que a cultura hegemônica, branca, faz. Hoje, para se achar o que é realmente a dança precisa-se de um significativo empenho para filtrar todas as outras interpretações.

Da mesma forma que a gentrificação nos bairros faz, onde a conexão com a terra, com a área, é perdida graças a processos especulatórios, no mundo online culturas de raiz são enterradas por várias outras interpretações e julgamentos. A dança do Harlem, por exemplo, que seriam diversos movimentos até surpreendentes, se torna algo orgiástico, ofensivo, despudorado. O real significado de comemoração de um jogo de basquete se perde no meio de universitários de cueca ou militares nórdicos se debatendo dentro de sacos de dormir.

Cavucando ainda mais a expressão, pensei nos problemas que os algoritmos de mecanismos de busca trazem. O que parece ser algo democrático (sites mais comentados e linkados são considerados mais relevantes e, com isso, ficam no topo), causa o obscurecimento de tantas outras vozes que nunca conseguirão chegar às primeiras páginas dos resultados. Os resultados por relevância acabam, então, camuflando grande variedade de conteúdo e impossibilitam com que se tenha a mesma visibilidade que sites mais – para manter a comparação – hegemônicos. Isso, de certa forma, também é uma gentrificação online, mas focada no enterro de vozes de culturas alternativas.

Agora, como evitar a gentrificação online? Seriam necessárias políticas públicas de preservação cultural virutal? Acordos entre empresas de busca e governos? Criação de novos algoritmos de busca (ou até seleção de que tipo de resultados se quer ter)?

Querendo ou não, a gentrificação online já é uma realidade.

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As novas tecnologias não só modificaram as relações sociais entre os cidadãos, mas promoveram mudanças no sistema econômico e nas relações de trabalho. Termos como “capitalismo cognitivo” ou “terceiro capitalismo” surgem para tentar explicar como saímos de uma produção industrial para adentrar em uma focada na informação e no conhecimento. Hoje, não é mais o produto final, físico, que importa, mas sim o conteúdo que há por trás de cada ação realizada dentro do sistema e estrutura de trabalho. Não se está mais preso a uma empresa durante o horário comercial. Agora, pode-se trabalhar de casa, usando vias de comunicação diversas, em qualquer horário. Sua vida passa, então, a ser seu trabalho, sem distinção nem interferência direta de uma instituição.

No modelo anterior de trabalho, as empresas exerciam uma função paternalista em relação ao seus empregados. A “firma” deveria ser responsável por prover serviços e benefícios que conquistassem seus empregados e, assim, criar uma relação de interdependência: fica-se em uma empresa porque se tem um plano de saúde bom e festas de fim de ano, e a empresa ganha estabilidade de um empregado para explorar durante horário comercial. Em vez de o indivíduo buscar os serviços que lhe garantissem qualidade de vida, era a empresa que deveria ser a provedora desta relação. Desta forma, por prover não apenas o salário e projetar a imagem de que cuida de seus empregados, a companhia pode controlar e estabelecer o Tempo do contratado. Em outras palavras, a instituição para a qual se trabalha estabelece a hora que se acorda, a hora que se deve chegar na empresa, quanto tempo será destinado ao seu almoço e quantas horas por dia se poderá dedicar a outras atividades, incluindo o lazer. A empresa era responsável pelos fluxos de sua vida cotidiana em troca de estabilidade e benefícios. O tempo, aqui, é um mecanismo de controle de produção, uma forma para garantir que o empregado esteja pronto e trabalhando todos os dias.

O “terceiro capitalismo” [1] (que sucede o mercantilismo e o capitalismo industrial) dilui essa percepção temporal. A junção da vida privada com o trabalho, e a produção de trabalho imaterial, fazem com que não se tenha estabelecida a hora para se dedicar a um projeto ou quando ele deve terminar. O controle se dá por entrega, por finalização, e não mais pelas horas dedicadas à produção. O tempo passa a ser, novamente, responsabilidade do indivíduo, que tem que aprender a administrar e a usá-lo de forma diferente do que acontecia com o capitalismo industrial. Nesta estrutura, o lazer e o trabalho se misturam (o que alguns teóricos chamam de “capitalismo lúdico” [2]), o que faz com que o controle sobre o Tempo fique muito mais com o sujeito do que com a instituição. A empresa também perde o papel patriarcal, uma vez que o trabalhador não está mais apenas atrelado a uma única companhia, mas sim a várias, realizando diversos trabalhos simultaneamente.

Esta concepção de capitalismo não é homogênea para todas as regiões do globo. A produção de trabalho imaterial fica mais evidente à realidade do hemisfério considerado mais desenvolvido (Norte), enquanto a produção material (fábricas, indústrias) é desterritorializada e reterritorializada aos países considerados em desenvolvimento (hemisfério Sul). Desta maneira, o consumo dos trabalhadores do “capitalismo cognitivo” acontece em dependência com a produção em outras regiões. A realidade do sistema capitalista fica dividida, então, por diversos territórios e tipos de trabalhadores. Da mesma forma que o capitalismo industrial tinha a divisão por classes e não abarcava artistas e intelectuais neste sistema, o “terceiro capitalismo” não contempla de forma direta as relações de trabalho em fábricas na China, já que não é um trabalho imaterial que é produzido. Mas opera com dependência a esse sistema.

O conteúdo e informação produzidos, porém, atuam no tipo de consumo que o “capitalismo cognitivo” gera, o que se cunhou como “produto ideológico” [3], ou seja,

“If production today is direcly the production of a social relation, then the ‘raw material’ of immaterial labor is subjectivity and the ‘ideological’ environment in which this subjectivity lives and reproduces. The production of subjectivity ceases to be only an instrument of social control (for the reproduction of mercantile relationships) and becomes directly productive, because the goal of our postindustrial society is to construct the consumer/communicator – and to construct it as ‘active’.” (Lazzarato: 143)

A produção, então, fica na superestrutura, na concepção e fomento da ideologia. Um exemplo que demonstra a criação de conteúdo/conhecimento casada com a concepção/fomento da ideologia é o aumento na procura dos produtos orgânicos. O consumo, aqui, é ligado às informações e às imagens que há por trás de cada mercadoria, ou seja, o que aquele produto traz e diz sobre a vida do consumidor. O consumo não se dá mais apenas por necessidade, mas sim pelo valor agregado que cada produto pode trazer. E isso está atrelado ao conhecimento que o consumidor gera sobre o macro da indústria. Quantos mais produtos orgânicos se consome, mais conhecimento se aparenta ter sobre o funciona a produção de produtos industrializados. Os produtos orgânicos, então, são o erro no simulacro da vida cotidiana [4], que garantem que o sistema continue produzindo e induzindo a sua manutenção por meio do controle dos corpos [5] da população. A ideia de que aquele produto faz bem à saúde faz com que o sistema econômico continue rodando e camufla a relação capitalista de produção e consumo existente.

Desta forma, o “capitalismo cognitivo” é mais uma tentativa de preservar o sistema de exploração do trabalho, mas desta vez por meio do biopoder, da subjetivação do indivíduo e mantendo a produção na superestrutura.

Notas:
[1] Yann Moulier Boutang. “Cognitive Capitalism”, Polity Press. 2011

[2] Alexander Galloway. “The Interface Effect”. Polity Press. 2012

[3] Maurizio Lazzarato. “Immaterial labor”. In Paolo Virno, Michael Hardy, “Radical Thought in Italy: a Potential Politics”. University of Minnesota Press. 2006.

[4] Jean Baudrillard. “Symbolic exchange and death”. Stanford University Press. 1988.

[5] Michel Foucault. “Right of death and power over life”. The Foucault Reader. Pantheon Books. 1984.

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Um pouco antes de voltar para NY, Mariana Manhães me convidou para escrever um texto sobre o seu trabalho para o Jornal do Commercio, na coluna Página da Caza Arte Contemporânea. Como eu estava lendo o novo livro de Alexander Galloway, The Interface Effect, resolvi usá-lo como método para analisar o aspecto lúdico das obras da Mariana.

O resultado você confere abaixo.

Logo depois da publicação, soube que era a última edição que o jornal publicaria o caderno de Artes.

O dia em que o bule falou

As tecnologias trouxeram novas ferramentas para a exploração do lúdico. Não é à toa que se há a ideia da exploração de um outro mundo, de uma realidade paralela que, em vez de física, é criada virtualmente. São interfaces de interação que culminam em efeitos e ações que exploram o ludismo do imaginário.

Em seu mais recente livro “The Interface Effect”, Alexander Galloway discute como a interface, quando se pensa nas tecnologias, deve ser considerada como um efeito no campo da metafísica. Para ele, a interface é sempre um processo ou uma tradução. E para traduzir melhor este conceito, ele cria quatro regimes de significação baseados na coerência estética e política. Se esteticamente coerente, a obra se foca em seu próprio processo, em seu centro; se incoerente, a importância está na estrutura, na borda, fora do conteúdo. Para a política, o importante é a linguagem: se coerente, a linguagem e a ideologia podem ser interpretadas facilmente; se incoerente, é a construção de uma nova estrutura.

O trabalho de Mariana Manhães pode ser considerado esteticamente coerente, uma vez que traz o espectador para o centro de seu objeto, e politicamente incoerente, em que busca uma nova linguagem embora mimética a outras áreas. É o que Galloway classifica como Poética. Mariana usa as estruturas e possibilidades das tecnologias (e, neste caso, o hardware mesmo) para dar vida a objetos cotidianos, como um bule ou uma lâmpada. Sua exploração não busca antropomorfizar os objetos, simulando gestos ou reações humanas. Mas criar um novo ser, uma nova possibilidade de interação com o mundo real, físico. O objeto estático deixa de ser passivo à ação humana e cria vida própria, com sua própria linguagem e movimentos únicos. A interação, nesta caso, como me contou a própria artista em uma entrevista, é autista. As obras não conversam com o mundo que conhecemos, com a nossa realidade cotidiana. Elas interagem entre si criando outros signos e linguagens a ser interpretados.

Mariana usa as tecnologias e as possibilidades que elas trazem para criar seres lúdicos que vivem em uma realidade paralela a nossa. A grande diferença é que este mundo não é virtual, mas sim físico. Embora estejam dividindo o mesmo espaço que nós, estão conversando e se relacionando entre si, em uma linguagem ainda a ser desconstruída para ser compreendida.

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Qual a mudança que a arte eletrônica pode causar no espaço público? O que isso difere das mudanças provocadas por um trabalho de arte contemporânea tradicional? Quais as limitações que a arte tecnológica sofre e quais as interferências no significado sobre o que é o espaço público?

Para responder essas perguntas, um objeto se faz necessário: algo que se relaciona com o ambiente que se está inserido e traga um novo significado ao espaço público. Mas a cada trabalho, há uma singularidade. Cada objeto traz um novo tipo de relação, um novo tipo de questionamento e, consequentemente, um novo tipo de significado para o que é o espaço público ou a esfera pública.

Rosalyn Deutsche, em seu texto “Agoraphobia”, afirma que a luta entre classes é o que faz ativar a esfera pública. O espaço público só pode ser constituído graças às diferenças socio-econômicas e a constituição da esfera pública. Como ela diz:

“Democracy abolishes the external referent of power and refers power to society. But democratic power cannot appeal for its authority to a meaning immanent in the social. Instead, the democratic invention invents something eles: the public space. The public space, in Lefort’s account, is the social space where, in the absence of a foundation, the meaning and unity of the social is negotiated – at once constituted and put at risk. What is recognized in public space is the legitimacy of debate about what is legitimate and what is illegitimate. Like democracy and public space, debate is initiated with the declaration of rights, themselves deprived in the democratic moment of an unconditional source. The essence of democratic rights is to be declared, not simply possessed. Public space implies an institutionalization of conflict as, through an unending declaration of rights, the exercise of power is questioned, becoming in Lefort’s words, ‘the outcome of a controlled contest with permanent rules.’”1

Neste caso, o que importa é a luta de classes e a interrelação socio-econômica entre os cidadãos. Agora, como uma obra de arte pode ser relacionada a esse tipo de conflito? Uma obra de arte conseguiria ativar este significado? Quais os significados que uma obra de arte pode trazer para o espaço público?

Um texto de Miwon Kwon, publicado na revista sobre crítica de arte October, parece apontar para um possível caminho:

“Today’s site-oriented practices inherit the task of demarcating the relational specificity that can hold in tension the distant poles of spatial experiences described by Bhabha. This means addressing the differences of adjacencies and distances between one thing, one person, one place, one thought, one fragment next to another, rather than invoking equivalencies via one thing after another. Only those cultural practices that have this relational sensibility can turn local encounters into long-term commitments and transform passing intimacies into indelible, unretractable social marks – so that the sequence of sites that we inhabit in our life’s traversal does not become genericized into an undifferentiated serialization, one place after another.”2

Será a arte pública ativadora do espaço público? Será que ela por si só consegue dar significado a um determinado local? E como fica a relação entre os cidadãos e o espaço em que esta arte está inserida? É importante ressaltar que, em muitos lugares onde a arte pública é instalada, a comunidade no entorno não é consultada ou se quer pode opinar no trabalho do artista. Se a arte pública tem o caráter de ativadora do espaço público, como se deve dar essa relação com a comunidade local? E como fica a relação entre o artista e a comunidade?

Notas:
1 – Deutsche, Rosalyn. “Agoraphobia”. Evictions. 1998. pags. 273-274

2 – Kwon, Miwon. “One place after another: notes on site specificity”. October 80. Spring 1997.

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Já faz dois anos em que fiz a pesquisa “A Arte do Cibridismo“, graças a uma bolsa de pesquisa em mídias digitais da Funarte. Naquela época, abracei o conceito teorizado por Giselle Beiguelman para descrever o estado de estar entre redes (on e offline) e fiz um mosaico sociológico sobre o contexto em que a produção de arte em novas mídias brasileira era feita. Giselle ajudou-me a selecionar os artistas que, de alguma forma, poderiam representar essa busca por utilizar formatos abertos ou demonstrar a aproximação entre a produção eletrônica e o público geral.

As entrevistas realizadas não só comentam sobre o trabalho de cada artista, mas explicam um pouco sobre a situação da arte contemporânea no Brasil. É interessante ver a preocupação pela preservação das obras que Mariana Manhães apontou em nossa conversa, ou a morte da concepção romântica sobre o que é o artista que Fernando Velázquez explica. A pesquisa, no fim, não é só sobre os artistas que usam a tecnologia como meio, mas também como eles estão inseridos em um panorama local.

Aqui, em NY, para o meu mestrado, estou a pesquisar como dar um passo além do que já foi publicado sobre cibridismo e iniciar uma conversa com o mundo artístico do hemisfério norte. Para tanto, estou desmembrando de onde vem a origem do nome (cyber + híbrido), conceitualizando a ubiquidade tecnológica, especificando os espaços públicos em que estamos inseridos, e entendendo qual a identidade de um ser inserido nesta realidade. Para mim, o cibridismo é mais do que um conceito, é um estado. Hoje nós somos cíbridos. Mas isso levanta várias outras questões: quem somos nós? Onde estamos? E como nós nos relacionamos com o ambiente inserido?

A ideia é criar um método que possa ser usado para análise de obras que usem as novas mídias. Por meio desse prisma, será mais fácil entender como a produção emerge e quais os percalços da criação. O importante, no fim, acaba sendo muito mais o processo do artista do que a conclusão da obra em si.

Vou postar por aqui a evolução da pesquisa, que será uma continuação dos estudos que iniciei em 2010. E vamos ver para onde vamos caminhar. 😉

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