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Finalmente, o ano chega perto de seu fim. Como é comum nesta época, faço aqui uma retrospectiva com um apanhado das ações que aconteceram sobre o Minhocão em 2014. Uma retrospectiva bastante subjetiva que narra os principais trâmites que presenciei. Desde o meu post sobre os 5 motivos para demolir o viaduto e a criação do grupo no Facebook SP Sem Minhocão!, várias ações foram feitas para aumentar a participação popular em toda esta discussão. O grupo na rede social trouxe vários argumentos e perspectivas, além de articular pessoas interessadas no assunto que querem ser ativas em todo este processo.

Para entender: antes mesmo de ser aprovado o Plano Diretor Estratégico (PDE), que determina a paralisação do tráfego no Minhocão, foi criado um projeto de lei (PL 10/2014) que, além de montar um cronograma sobre como a via será fechada, também aprova um parque suspenso em suas estruturas. Repito: antes mesmo do PDE ser aprovado, o PL já tinha sido criado, sem consultas ou participação popular. É importante ressaltar que há uma grande diferença entre participar das discussões do PDE e uma discussão sobre um PL. O Plano Diretor são diretrizes gerais para a cidade, que engloba diversos assuntos. Um projeto de lei é bem específico e pode ser encaminhado para o executivo a qualquer momento a partir da votação. As discussões sobre o PDE não são as mesmas das para um PL. E, para piorar, o PL é assinado por nada menos do que 7 partidos políticos, o que o dá grande força dentro da Câmara Municipal. Isso tudo sem discussões, sem debate, sem projeto apresentado.

O PL já passou pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o qual deu um parecer legal, mesmo tendo o pedido de inconstitucionalidade feito pelo vereador Eduardo Tuma (PSDB). Agora, o PL está na Comissão de Política Urbana, Metropolitana e Meio Ambiente (URB), onde deverá ser discutido com mais detalhes. Mas é importante salientar que a partir que um PL é aprovado pela CCJ ele pode ser votado a qualquer momento, sem necessariamente passar pelas outras comissões.

Vamos à retrospectiva:

– Organizamos um fórum, idealizado por Elisa Moreau e com participação de tantas outras pessoas, no dia 3 de dezembro dentro da Câmara dos vereadores para aproximar a sociedade civil do debate e qualificar os argumentos. Para tanto, convidamos: Athos Comolatti, da Associação Parque do Minhocão; Yara Góes, do movimento Desmonte o Minhocão; o arquiteto José Armênio Brito Cruz, do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB); o arquiteto Lúcio Gomes de Machado; a urbanista Anne Marie Sumner; o fotógrafo Felipe Morozini; Fernando Serapião; Alexandre Moreira; Fabiana Cunha; Paula Andrade; Valter Caldana; Fernando Melo de Franco, Secretário Municipal de Desenvolvimento Urbano; e Tadeu Leite, diretor adjunto de Planejamento, Projeto e Educação de Trânsito da CET. Participaram também os vereadores Ricardo Young (PPS), José Police Neto (PSD), Toninho Vespoli (PSOL) e Nabil Bonduki (PT). O promotor de Justiça do Meio Ambiente Marcos Lúcio Barreto também compareceu e apresentou sua perspectiva sobre o assunto;

– O evento não foi gravado em vídeo na íntegra por causa de uma confusão com a mudança de sala na última hora. O perfil no Facebook do vereador Ricardo Young publicou uma explicação sobre a falha. Mas Cecília Oka fez o grande favor de gravá-lo em áudio;

– O Portal Aprendiz fez uma reportagem sobre o evento, assim como a Web Rádio Câmara SP e a TV Câmara;

– Para que os vereadores participassem do Fórum, eu e Elisa passamos três semanas visitando os gabinetes e conversando com os vereadores e assessores para que entendessem que o nosso foco era a participação popular sobre o assunto. Os gabinetes que abriram suas portas para a gente foram: Ricardo Young (PPS), Nabil Bonduki (PT), Marco Aurélio Cunha (PSD), Jair Tatto (PT), Laércio Benko (PHS), Natalini (PV), Netinho de Paula (PC do B), Roberto Tripoli (PV), Donato (PT), José Police Neto (PSD), Toninho Vespoli (PSOL), Claudinho (PSDB) e Mário Covas Neto (PSDB);

– É importante explicar que para fazer qualquer atividade dentro da Câmara é preciso que um gabinete abra suas portas e realize a burocracia interna. Para este evento, quem abriu o seu gabinete foi o vereador Ricardo Young. Os seus assessores Rangel Mohedano e Sérgio Borges Arruda foram os responsáveis por articular toda a parte interna e convidar oficialmente os participantes da mesa;

– Eles publicaram um relatório, com as infos que conseguiram juntar, sobre o que foi discutido neste primeiro encontro;

– A ideia do fórum é que seja uma série. Este foi o primeiro encontro para qualificar o debate, ou seja, trazer informações e dados sobre ambas as partes (parque e desmonte) para que a população e os vereadores entendam os argumentos em jogo. O segundo encontro está previsto para fim de fevereiro ou começo de março, sendo o terceiro planejado para acontecer em abril. Para o próximo, queremos que outro gabinete da Câmara nos ajude na burocracia interna, de forma a manter a discussão fora de um só gabinete e envolver mais vereadores na conversa;

– A Elisa deu uma entrevista bem interessante para a Universidade Metodista;

– Eu fui convidado pelo Tendências/Debates, da Folha de S. Paulo, para escrever um artigo defendendo o desmonte. Do outro lado, o vereador Coronel Telhada defendeu a construção de um parque;

– Fiz pedidos de acesso à informação para a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e à Secretaria Municipal de Transportes sobre as alternativas e estudos sobre desvio de tráfego para garantir a paralisação do Minhocão. Eis as respostas:
Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano:
Prezado Thiago,

Os estudos de tráfego são de responsabilidade da CET, a quem devem ser encaminhadas as questões. Com relação ao Minhocão, este está dentro do perímetro do Arco Tietê, que é objeto de procedimento de chamamento público nº 001/2013 SMDU, ao qual a iniciativa privada e demais entidades foram convidadas para participar da discussão de propostas urbanísticas para este perímetro do Arco Tietê. No entanto, a revisão do Plano Diretor Estratégico (PDE) trouxe a obrigação de uma ampla discussão sobre os destinos do elevado, prevendo a elaboração de lei específica que deverá determinar a gradual restrição ao transporte individual motorizado no Elevado Costa e Silva, definindo prazos até a sua completa desativação como via de tráfego, sua demolição ou transformação parcial ou integral em parque.

A Câmara Municipal tem feito audiências públicas sobre isto e as hipóteses são as mais variadas: demolir, transformar em parque, trocar o tráfego por transporte público (BRT ou VLT). Dessa forma, os projetos para o Minhocão devem comprovar sua eficácia como solução urbanística, sua viabilidade econômica e ser objeto da construção de um consenso entre todos os agentes envolvidos (moradores, usuários da região, investidores e empreendedores privados) e as diversas esferas do governo. A partir dos possíveis consensos desta discussão pública, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (SMDU) irá examinar as alternativas para propor soluções.

A Operação Urbana Lapa-Brás também está compreendida no Arco Tietê, cujo material está disponível na plataforma Gestão Urbana através do link: http://gestaourbana.prefeitura.sp.gov.br/arco-tiete/

Referente à Operação Urbana Água Branca, todo o material referente à operação está disponível no site da SPUrbanismo e pode ser acessado no link: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/desenvolvimento_urbano/sp_urbanismo/operacoes_urbanas/agua_branca/index.php?p=19589

Secretaria Municipal de Transportes:
Prezado Munícipe, Agradecemos o seu contato via canal e-SIC e comunicamos que sua solicitação foi indeferida, uma vez que não existem estudos até o momento. Por oportuno, esclarecemos que a Lei nº 16.050/2014 (Aprova a Política de Desenvolvimento Urbano e o Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo e Revoga e Lei n. 13430/2002) estabeleceu que “lei específica deverá ser elaborada determinando a gradual restrição ao transporte individual motorizado no Elevado Costa e Silva, definindo prazos até sua completa desativação como via de tráfego, sua demolição ou transformação, parcial ou integral, em parque” (Art. 375, Parágrafo único). Em não havendo sido aprovada a referida lei, não temos o que informar a respeito da solicitação a nós dirigida. Quanto às informações sobre as operações urbanas V. Sra. poderá encontrá-las nos sites da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/desenvolvimento_urbano/noticias/index.php?p=19525) e SP-Urbanismo (http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/desenvolvimento_urbano/sp_urbanismo/ ).“;

– Protocolei junto à Câmara outros 8 pedidos de acesso à informação para saber as agendas dos 8 vereadores que assinam o projeto de lei que aprova o parque. A ideia é descobrir quem foram as pessoas, entidades e movimentos com quem eles se reuniram para discutir sobre o Minhocão durante o seus atuais mandatos (2012-2016). Até agora, só obtive a resposta do vereador José Police Neto, para quem já pedi recurso por não ter respondido à pergunta. Segue sua resposta:
Boa tarde,
Recebi o senhor Thiago Carrapatoso em reunião no meu gabinete no dia 18 de novembro às 9:30 hs. Oportunidade em que pude apresentar-lhe, bem como a senhora Elisa Moreau, que o acompanhava, atividades, ações, reuniões e temas desenvolvidos pelo atual mandato em relação ao Minhocão. Tive, ainda, a oportunidade, em nossas horas de diálogo, de lhe apresentar a base argumentativa que me levou a oferecer emenda ao Novo Plano Diretor visando a ‘Desativação do Minhocão’. Emenda essa que abriu caminho para a construção do texto sancionado pelo chefe do Executivo. Mantenho meu mandato à total disposição do interessado.

Atenciosamente,

José Police Neto“;

– Conversei com o pessoal do Artigo 19, organização que tem o foco na lei de acesso à informação, para me ajudar a destravar as informações que envolvem o assunto junto ao poder público;

– Nós, do SP Sem Minhocão!, estamos desenvolvendo um dossiê para protocolar nos gabinetes em janeiro. Desta forma, os vereadores terão um documento para pesquisar, caso queiram se inteirar sobre o assunto antes de votar qualquer projeto;

– Pedi uma conversa com o prefeito Fernando Haddad para explicar os argumentos contra o PL e a falta de transparência em todo o processo. Ainda esperando resposta.

Como se vê, o ano rendeu, mas ainda falta muito para ser feito. Embora tenhamos insistido veemente para que os vereadores mudem o PL que está em tramitação hoje (até fizemos um substitutivo para ele), eles simplesmente preferem falar que a população será ouvida, sem estabelecer nenhuma garantia para isso. A grande questão é que é impossível se organizar um debate imparcial tendo um projeto de lei, que pode ser votado a qualquer momento, já aprovando uma das partes. Se o poder público quer realmente aumentar a participação da sociedade civil em suas decisões, é importante criar mecanismos e ambientes favoráveis a isso. Qualquer discussão sobre o Minhocão hoje é extremamente tendenciosa, justamente por causa do PL.

Mudar isso é o plano para 2015.

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Quando escrevi as 5 razões para se demolir o Minhocão, a pesquisa sobre os processos legislativos envolvendo o engodo de concreto ainda estava bem no começo. Graças às discussões no grupo do Facebook as tramitações ficaram um pouco mais claras. E assustadoras.

O Plano Diretor Estratégico (PDE) argumenta por uma lei específica sobre a paralisação do Minhocão e, junto, a definição sobre o que será feito com suas estruturas. O PL 0010/2014 de autoria de José Police Neto (PSD), Nabil Bonduki (PT), Toninho Vespoli (PSOL), Ricardo Young (PPS), Goulart (PSD), Natalini (PV) e Floriano Pesaro (PSDB) define os prazos para a paralisação do tráfego sobre o viaduto e, junto, já aprova a construção de um parque.

Mas calma.

Quando se realmente definiu que o Minhocão vai virar parque? Quando aconteceram as consultas públicas para esta decisão? Qual projeto de parque foi aprovado? Há estudos de impactos sobre o que isso pode causar na região? Quem administrará isso? Quanto custará este novo empreendimento? Quem ficará responsável pela gestão dos recursos? Como será definido este “conselho gestor horizontal”?

Várias perguntas podem ser feitas que não terão respostas imediatas. Longe da questão sobre se parque ou não, criamos um abaixo-assinado para protocolar um substitutivo a esse projeto, de forma que a lei específica contemplada pelo PDE seja quebrada em duas: uma que define os prazos para a desativação do Minhocão; e outra que explica o que será feito com suas estruturas, mas passando por consultas populares e estudos de impacto sócio-ambientais na região. Uma coisa é a paralisação, a outra o que será feito com o viaduto. Misturar as duas questões em um projeto de lei só é passar por cima de todos os debates que poderiam ser feitos envolvendo a população da região.

Agora, a questão é como deixar o processo mais democrático e participativo. Antes de se definir o que realmente fazer pós-Minhocão, é preciso que haja discussões e consultas entre a população. Abaixo, você encontra o substitutivo que mandaremos para a Comissão de Constituição e Justiça para que eles revejam o processo.

E não esqueça de assinar o abaixo-assinado! Quanto mais assinaturas conseguirmos, mais fácil será para a Comissão da Câmara rever o projeto de lei. Pressão popular funciona!

JUSTIFICATIVA

O presente substitutivo é motivado porque o atual projeto de lei (PL 0010/2014) aprova automaticamente a construção de um parque elevado, sem que tenha havido anteriormente uma ampla e suficiente discussão com os moradores da região, além de estudos de impacto que o novo empreendimento pode causar na região.

A definição sobre o uso futuro do Elevado após seu fechamento para o tráfego precisa ser acompanhada de estudos e análises de impacto socio-ambiental de cada possibilidade, além de consultas publicas para que haja uma real e ativa participação democrática sobre a decisão. Não houve tempo hábil para que este determinado assunto seja questionado e estruturado de forma participativa. E, ainda, não é de teor publico qual projeto de parque será aplicado na região para que a população mensure os impactos em sua vida cotidiana.

Por isso, vimos por meio deste documento pedir para que se crie uma lei específica para a paralisação do Minhocão sem contemplar o seu futuro, e uma outra que defina o que acontecerá com suas estruturas: se parque ou se demolido. Além disso, queremos que sejam feitas consultas publicas, em lugares fora da Câmara, para discutir os reais impactos sobre os diferentes uso futuro, de modo a criar massa crítica e possibilitar com que a população seja melhor informada sobre as mudanças que acontecerão em seu bairro.

SUBSTITUTIVO AO PROJETO DE LEI Nº 01-00010/2014 dos Cidadãos.

Regulamenta a desativação gradativa do Elevado Costa e Silva

A Câmara Municipal de São Paulo DECRETA:

1° – Desativação do Elevado Costa e Silva sera gradativa como via de trânsito, conforme o seguinte cronograma:

I – Até 90 dias a partir da sanção da Lei: estender o fechamento para o trânsito aos sábados;

II – Até 270 dias a partir da sanção da Lei: estender o fechamento para trânsito no período das férias escolares;

III – Até 720 dias a partir da sanção da Lei: restringir o horário de funcionamento para tráfego de veículos motorizados nos dias úteis, exceto feriados e férias escolares, para o horário das 7h às 20h;

IV – Até 1080 dias a partir da sanção da Lei: restringir o sentido da operação do Elevado Costa e Silva para tráfego de veículos, permitindo apenas o trânsito bairro-centro no período da manhã e centro bairro no período da noite, nos horários e dias previstos nos incisos anteriores;

V – até 1440 dias a partir da Sanção da Lei: desativação completa do Elevado Costa e Silva.

Artigo 2° – O Poder Público Municipal, na forma da legislação vigente, incentivará atividades culturais, esportivas e de lazer no Elevado Costa e Silva e no seu entorno, por parte da comunidade e de entidades da sociedade civil, assim como garantir as adequadas condições de segurança no local durante os horários de fechamento ao tráfego durante os períodos nos quais o mesmo se encontre fechado para trânsito de veículos.

Artigo 3° – O Poder Público Municipal deverá promover um amplo debate público durante o período de desativação do Elevado Costa e Silva, assim como realizar estudos de impacto ambiental para subsidiar a elaboração de um plano para sua demolição ou transformação, parcial ou integral, em parque conforme legislação vigente.

Parágrafo único: a definição do plano deverá ser feita por meio de uma lei específica, baseada nas discussões com a população civil, a entrar em vigor 30 dias após a desativação completa do Elevado Costa e Silva.

Artigo 4º – O não cumprimento das obrigações e prazos constantes nesta lei implicará na transferência mensal de R$ 100.000,00 (cem mil reais) da rubrica de verba de publicidade do município vinculado à Secretaria Executiva de Comunicação para a rubrica Implantação de Parques da Secretaria Municipal de Verde e Meio Ambiente.

Artigo 5º – As despesas decorrentes da execução da presente lei correrão por conta das dotações orçamentárias próprias, suplementadas se necessário.

Artigo 6º – O Poder Executivo regulamentará esta Lei no prazo de trinta dias.

Às Comissões competentes.

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