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No dia 25 de outubro de 2018, convidado pelo Instituto Procomum, eu participei da mesa “Cidade Comuneira”, parte do ciclo A Lente do Comum, que aconteceu no Centro de Pesquisa e Formação do SESC. Comigo estavam a sensacional Mariana Belmont e o fantástico Ricardo Brazileiro, cada um apresentando a sua perspectiva urbana/rural sobre o que são os commons. Eu, por causa do Cidade Queer, tentei trazer uma perspectiva bicha sobre o que significa este commons para a comunidade LGBT+.

É importante salientar que parto das minhas perspectivas, minhas experiências, para tentar explicar como eu vejo esse conceito. Não é algo já teorizado ou uma tentativa de explicar, academicamente, a relação do queer e os commons. O que fiz foi uma apresentação afetiva e subjetiva sobre essa perspectiva.

Abaixo, segue o texto:

Que tiro foi esse, viado?

É super desconfortável discutir o tema dos commons usando a perspectiva ou uma vida queer. Os commons, por definição, é aquilo que é compartilhado, dividido por todos ou por uma grande maioria. O queer, por sua vez, é o oposto: é o que está a margem, é o ausente, é o não condizente com aquela determinada hegemonia. Eu vou problematizar um pouco disso mais tarde, mas o termo queer, anglo-saxônico, era usado justamente para distinguir as pessoas que não se adeqüavam ao comum, ao que era considerado normal. Poderiam ser pessoas com problemas mentais, pessoas com comportamentos destoantes, ou pessoas consideradas doentes, como os LGBTs eram na época. Isso estou falando durante as décadas 1940-1950 nos Estados Unidos, onde na maioria das cidades ser gay, ser LGBT, ainda era proibido por se cometer o crime de sodomia. Para se ter ideia, um dos estados considerados mais liberais para a questão LGBT historicamente é Nova York. E somente é considerado assim porque durante o fim da década de 1950 diminuiu a penalidade da lei contra sodomia de um crime ofensivo para apenas um delito casual, em que a condenação caiu “drasticamente”, para ser de apenas 6 meses de enclausuramento. Repito: 6 meses preso.

Quando se há leis que diminuem ou condenam uma determinada parte da população, é comum ver a polícia ou outra autoridade se apropriar e explorar essas comunidades como modelo de negócio. A extorsão e o suborno se tornam atos comuns do dia a dia, como se a população explorada precisasse necessariamente pagar para quem está no poder para continuar a existir. Se não se pagar, há as famosas batidas, em que a polícia — ou qualquer outra autoridade — já chega em locais de agrupamento (que no caso LGBT seriam saunas, bares, ou baladas) junto com a imprensa e camburões para prender e fotografar todos que estavam naquele determinado local. É uma forma de punir duplamente o infrator: a punição hierárquica, para se mostrar quem está realmente no poder; e punição vexatória, em ter sua cara estampada na capa (sim, essas reportagens saíam na capa) dos jornais de alta circulação (não existia celular e tão pouco televisão naquela época…). A população LGBT é, portanto, mais uma vez, uma exceção da ordem natural, ou do comum, de uma determinada época. E foi justamente por causa dessas incursões exploratórias das autoridades que, finalmente, uma drag resolveu dar um basta nestas situações e revidar as autoridades (ou seja, os policiais). E foi aí que, finalmente, surgiu a ideia de direitos da população LGBT. Só a partir daí é que se tentou pautar uma similaridade entre o que acontecia entre os que eram hegemônicos e a população que era classificada como queer, às margens. Eu nem preciso dizer que a ideia de direitos já era algo tido como comum naquela época, e muito tempo antes disso. Mas só foi no fim da década de 1960 que esse comum pode ser compartilhado com a gente.

Isso tudo para explicar que a minha vida, a minha existência, a minha comunidade, não compartilha dos mesmos commons que nós somos obrigados a compartilhar hoje. E isso é muito provado pelo conceito que todas as pessoas LGBT sentem impostas em suas vidas desde quando nasceram: o armário. Somos, desde pequenos, cobrados a “sair do armário”. Mas, gente, o que é esse armário? E quem me colocou lá? E por que desde criança eu sou cobrado sobre isso, sendo que eu nem fazia ideia do que era? Só para vocês entenderem, quando eu era pequeno — deveria estar na 3ª ou 4ª série — na minha escola, todos os dias antes de se entrar na sala de aula, cada classe fazia duas filas no pátio: uma para meninos e outra para meninas. Eu, sem saber direito o que eu era e todas essas divisões loucas desses commons do começo da década de 1990, resolvi entrar no meio e fazer uma fila própria. Do meu lado direito, a fila dos meninos; do meu lado esquerdo, a fila das meninas; e no meio eu. Eu olhava para os dois lados e não conseguia me identificar com nenhum: não me identificava com as meninas, porque para mim eu era menino; não me identificava com os meninos, porque eu era completamente diferente deles. Nem preciso dizer o que isso resultou. Mas incrivelmente nenhuma recriminação ou constrangimento vieram de uma fila ou de outra. A repressão e a verdadeira ideia do que é esse armário veio pela reação da minha professora de educação física que ordenava as filas da minha classe: a risada sem constrangimentos e os comentários com os outros professores para ver o que o “estranho”, o “diferente”, o “queer” estava fazendo. E pior: mesmo com tudo isso, eu ainda não tinha entendido qual era o problema. Eu olhava a reação dos professores sem compreender que o que eu tinha acabado de fazer era a verdadeira razão da chacota deles. Eu só fui processar essa informação porque o meu melhor amigo daquela época, vendo a situação em que eu estava, me chamou para ficar ao seu lado. Eu, então, dei uns passos para trás e fiquei ao lado do meu amigo. Eu não estava em sua fila, mas também não estava fora, e mesmo assim continuava no meio. Foi nesse momento que eu entendi o que é o armário. É você se adequar a expectativa do outro de forma que suas vontades sejam reprimidas para que o outro se sinta confortável de andar com você. O armário é isso. Não à toa que “sair do armário” é considerado uma experiência potencialmente traumática: é o momento em que as pessoas, os commons, podem escolher não querer ter você mais por perto por você ser diferente, e você, então, ser reafirmado como queer. E é exatamente por isso que todos os LGBTs são cobrados a sair dele. Eu preciso avisar todo mundo que eu sou o queer, que eu sou à margem, que eu não compartilho dos mesmos costumes que todos os outros. E é exatamente por isso que o armário não é nosso, não é construído na comunidade LGBT, mas sim construído e compartilhado dentro desse commons, dessa hegemonia, e, depois, aplicado, violentamente, aos queers, aos que estão às margens. É um tiro que corta as nossas vidas e nos molda desde o momento que nascemos.

Eu sempre falo que a minha história, por exemplo, não é linear, vertical, como a das outras pessoas. A minha história não é ligada a territórios (países, continentes, fluxos imigratórios, etc), ou a ascendência (minha linhagem, o meu sangue, minha raça), e nem a tempos históricos. Ela acontece horizontalmente no tempo e espaço, porque nós estamos em todas as histórias simultaneamente. Não interessa de quem eu sou filho, de que país ou região eu sou, ou qual religião eu sigo. Nós existimos em todas elas. Enquanto houver uma mulher parindo, a minha história continua existindo. E é sempre bom ressaltar isso porque a história LGBT parece se repetir muito mais do que as outras histórias. A não tão pouco tempo atrás, se queria, por exemplo, acabar com a determinação do conselho de psicologia de que ser LGBT não é uma doença para que, assim, psicólogos homofóbicos pudessem praticar o que é chamada de “cura gay”. De repente, não mais que de repente, em pleno 2017, ser gay poderia ser uma doença psicológica a ser tratada e curada aqui no Brasil. Ou seja, nós iríamos voltar à mesma situação da década de 1940 em que havia um CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde) para o que era considerado um transtorno comportamental. Se vocề está achando isso um absurdo, imagine que somente em junho deste ano, de 2018, que a Organização Mundial da Saúde tirou do CID a transexualidade. Então, até o começo deste ano, ser trans era um problema mental que, possivelmente, poderia ser tratado e até curado.

O mais interessante disso tudo é que há autores da teoria queer que consideram essa oposição entre o queer (ou seja, o à margem) e os commons (ou seja, o hegemônico) como sendo parte integrante do padrão, e não necessariamente do à parte. Em outras palavras, ser diferente da heterossexualidade nada mais é do que um aparato (sim, aparato) para assegurar a heterossexualidade como hegemônica e perpetuar a diferença societária entre um e outro por meio da negação. Dessa forma, o queer, então faz uma conexão inesperada com os commons, justamente com aquilo que o negou, o excluiu, o agrediu. Somente neste momento, seguindo essa ideia, que se vê o queer dentro e contemplado pelos commons. Mas se analisarmos internamente, essa ligação acontece somente pela negação do hegemônico, e não pela afirmação e estruturação de uma identidade singular. Ou seja, o queer, mais uma vez, reprimido e subjugado pelos próprios commons.

Um bom exemplo dessa situação é pensarmos que as mesmas leis que orientam o hegemônico são as aplicadas aos que estão à margem. Ao mesmo tempo em que elas orientam ambas, elas também subjugam e reprimem as diferenças. A ativista e trans Indianara Siqueira, por exemplo, deu um nó recentemente na justiça brasileira. Ao sair semi-nua durante a Marcha das Vadias no Rio de Janeiro, em 2013, ela foi abordada e presa por policiais por cometer um crime de atentado ao pudor. Porém, naquela época, a justiça brasileira não identificava a transexualidade como uma identidade própria, mas sim uma subversão da identidade binária entre o masculino e o feminino. Sendo assim, para os autos, Indianara é homem, então deveria poder sair nas ruas sem cobrir seus mamilos sem nenhum problema. Mas, já que foi enquadrada como atentado ao pudor por mostrá-los, mostra que é sim considerada como uma mulher. Então, se na condenação a justiça considera-la como homem, que anda normalmente sem camisa na rua, poderá abrir brecha para que todas as mulheres andem também sem camisetas, já que o peito em si não será mais considerado atentado ao pudor. Porém, se a justiça a considerar como mulher, abre uma brecha legal para que todas transexuais possam clamar por sua identidade de gênero oficialmente.

Não é somente as leis judiciárias que são aplicadas com medidas diferentes na população queer. Há também a questão das leis societárias/culturais, em que o que é condenável nos commons é levado como uma brincadeira nas margens. Há uns anos, por exemplo, eu fui vítima de violência de um cara que me deu uma porrada na cara em plena balada porque não quis ficar com ele. O desejo dele se sobrepôs a qualquer negação de afeto que eu poderia expressar. Nisso, o resultado não foi só eu sofrer a violência física, mas também a psicológica. A partir daquele dia, nunca mais eu deixei de ser consciente no desejo que eu poderia provocar em uma pessoa e qual limite isso poderia atingir. Em outras palavras, eu passei a medir qualquer relação afetiva que tinha para tentar evitar qualquer outro ataque. Quando isso acontece no mundo heterossexual, a condenação ao machismo se sobrepõe, e todo suporte é destinado à vítima. Quando, no meu caso, a agressão aconteceu, poucas pessoas a associaram ao machismo, muitos dos meus amigos riram, outros tantos consideraram como sendo um caso em que “as gays que se resolvam”. Se isso acontecesse dentro dos commons, do hegemônico, a reação, talvez, fosse completamente diferente.

Tudo isso para dizer que os commons, quando vistos por uma perspectiva queer, possuem outros pesos e outras medidas. Nós podemos compartilhar diversos pontos em comum, mas no fim sempre é possível ver a diferença, o tiro que transforma esse compartilhamento em imposição. Ou então em não acolhimento. Somos, no fim, à margem e, aos poucos, aos trancos e barrancos, estamos construindo os nossos próprios commons, a nossa própria estrutura.

Por fim, gostaria que vocês pensassem que tudo que acabei de descrever pode ser muito exemplificado pela possível ameaça à população LGBT que o candidato do caixa 2 proclama. Há sempre um retrocesso, uma repetição histórica, em que, do nada, nos vemos sem direitos e subjugados a um tipo de concepção moral que não nos condiz. E por mais que tentamos acompanhar e lutar contra, como estamos sozinhos, só nos sobra perguntar: que tiro foi esse, viado?

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