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Ciborguiana


“O ciborgue aparece como mito precisamente onde a fronteira entre o humano e o animal é transgredida.” (Donna Haraway)

A rede é palco de diferentes vozes, simultâneas, divindo espaço entre mecanismos de busca e seleções de editores para que possam ser ouvidas de algum modo. Grupos e mais grupos se amontoam em listas de discussões para tentar chegar a consensos sobre temáticas cada vez mais deliberativas. Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? Existe algum deus que nos rege? Será que os humanos estão fadados à destruição? Quais são os limites orgânicos de nossos corpos?

Eu já comentei sobre como a rede é usada para, por exemplo, levantar questionamentos sobre o feminismo e combater o preconceito. Indo um pouco mais fundo ainda neste assunto, como podemos pensar a sexualidade feminina em um futuro inorgânico, no qual o humano e a máquina se entrelaçam e a androginia é cada vez mais presente?

Foram essas ideias que motivaram Donna Haraway a escrever o Manifesto Ciborgue, um marco na discussão sobre a integração entre a ciência e os avanços tecnológicos e a vida orgânica. Mais do que suscitar discussões sobre o feminismo em um mundo cada vez mais integrado, o ensaio é uma referência à evolução da sociedade humana focada em um corpo mais sobrenatural. Em outras palavras, é a ideia de que o homem é uma máquina a ser cada vez mais aperfeiçoada e disponível à superação de limites até então naturais.

A literatura sobre ciborgues é vasta. A filmografia então é outra quase sem fim. A ideia da junção entre homem e máquina povoa o imaginário ocidental há centenários.

Hoje, existem diversas outras teorias, com base na evolução do homem-máquina, que norteam pesquisas e, até, comportamentos. Eu, por exemplo, fui contemplado com uma bolsa de estudos, concedida pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), para estudar como o conceito de cibridismo está interferindo e influenciando a produção audiovisual brasileira. Todas as pesquisas, fichamentos e entrevistas estarão no blog Arte do Cibridismo, dentro do espaço da Culturadigital.br (aliás, lá você conseguirá encontrar trechos do manifesto de Haraway dentre outras obras relacionadas ao tema).

O cíbrido é a realidade que existe entre os mundos off e online. É algo que fica entre os dois limiares, sem saber ao certo se pertence a um ou a outro. É a integração, cada vez mais presente, de nossas necessidades com as oportunidades tecnológicas. É um mundo em que os celulares fazem os papéis de telefones, agendas, câmeras de vídeo e foto, mapa, bússula, calculadora e por aí vai. Um simples mecanismo com centenas de funcionalidades que é carregado no bolso de cada um.

Tudo isso sem levantar questionamentos sobre a biotecnologia, genética, biofeedback e etc. Será que estamos criando um admirável mundo novo moderno? Não sei. O bom é que ainda temos a criatividade para abusar dessas ferramentas e, ainda, continuarmos respirando naturalmente.

Imagem feita por J_(mtonic.com)

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Câmeras por todos os lados


E se estivéssemos sob constante vigilância, 24 horas por dia, todos os dias da semana, sem descanso ou lugar para nos abrigar? E se o único lugar para fugir fosse o nosso lar, apenas? Em que as ruas, lojas, carros, escritórios, enfim, todos os outros lugares considerados públicos tivessem microcâmeras escondidas em postes de luz, lâmpadas, botões e todo e qualquer lugar possível? Um mundo em constante vigilância.

George Orwell já imaginou parte disso no clássico “1984” (por favor, ignorem a existência do filme. O livro dá de milhões a zero), e Aldous Huxley já tinha mostrado sua versão de um futuro sob controle com seu “Admirável mundo novo”.

Recentemente (embora bastante atrasado), descobri o texto de David Brin “The Transparent Society” (A sociedade transparente, em tradução livre), publicado em dezembro de 1996, que virou um livro sobre a falta de privacidade em um mundo cada vez mais vigiado por câmeras.

No artigo, Brin traça dois mundos que têm em comum a ubiquidade das câmeras: o primeiro em que todos os movimentos são captados e reportados para as autoridades de segurança, como a polícia; e o segundo em que quem possue o controle são os próprios cidadãos, olhando uns aos outros.

Os cenários, embora muito parecidos pela falta de privacidade, são completamente díspares em qualidade de vida. Na Cidade do Controle, os cidadãos são acossados pela falta de liberdade. Na Cidade da Confiança, todos respeitam os limites e a vigilância é apenas usada para fins simplórios, como ver se a namorada ainda está esperando em frente ao cinema.

(Parênteses para ressaltar que o artigo é de 1996, mesma época em que se viu a popularização das câmeras de vigilância em cidades como Londres, na Inglaterra, com seus circuitos fechados de televisão)

O artigo, a meu ver, não tem muitas informações interessantes além das que já foram levantadas por tantos outros autores (como demonstram Orwell e Huxley). O que chamou a minha atenção para os cenários de Brin foram 1) o custo que o sentimento de segurança nos traz (e que, na maioria das vezes, cai para a falta de privacidade), 2) a crença de que a colaboração é sempre fantástica (o que prediz que todos acreditam no mesmo ideal) e 3) a ideia fixa entre alguns autores de que, realmente, por causa da expansão das tecnologias, o futuro será vigiado.

Será que, ainda, não se dá para prever uma outra via?

Imagem tirada por rpongsaj

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Campus Party: Grid e informação compartilhada


E começa mais uma Campus Party Brasil. Terceira edição do evento que já falamos tanto* por aqui. Eu já fui lá para cobrir a programação sustentável, ajudei na coordenação da área do Campus Verde e, neste ano, estou apenas tentando arquitetar o encontro de gestores de lan houses brasileiros (mais informações – isso, se vingar mesmo – depois do evento :P).

Para quem não sabe, a Campus Party Brasil é um dos maiores eventos de tecnologia da América Latina, na qual cerca de 6 mil pessoas acampam durante sete dias no Centro de Exposição Imigrantes apenas respirando esse mundo. Alguns a chamam de Nerdstock, em alusão à festa hippie Woodstock; outros ainda vão mais além e a comparam a uma micareta de nerds.

Seja o que for, aqui – sim, eu já estou aqui – é palco para diversas iniciativas interessantes e que envolvem uma outra percepção da tecnologia além dos milhares de gadgets tão comuns na vida de hoje. Uma delas, é o Grid Público, projeto que envolve a distribuição e processamento de dados públicos compartilhados em seu computador. É assim: sua máquina é muito mais potente do que você pode usar, então, por que não destinar parte de toda esta potência para que outra pessoa consiga trabalhar com projetos de interesse público? A partir de amanhã, quando o projeto será lançado, é só entrar no site do projeto e baixar o programa que destinará parte do processamento de seu micro aos projetos desenvolvidos.

É um espaço e infraestrutura nos quais todos os computadores poderiam ajudar; o que precisa é só da participação das pessoas. O projeto é coordenado pela Daniela Silva, que já foi repórter aqui do Planeta Sustentável, mas que agora é diretora da Esfera e pesquisadora de transparência pública e novas tecnologias. Conversei um pouco com ela para me explicar melhor o projeto e como isso pode ajudar a sociedade.

"Grid Público é uma experiência com o intuito de criar uma infraestrutura distribuída, colaborativa, escalável para processar informações públicas. Ele está inspirado em vários conceitos, como na ideia de que informação é realmente pública e, considerando as novas tecnologias, ela não precisa ficar trancada em servidores do governo”, comenta.

Dani explicou que a ideia de usar a tecnologia grid computing veio justamente por ser algo que democratiza o acesso e o processamento de todas as informações. Se os órgãos do governo disponibilizassem todas as informações referentes às suas gestões de forma ordenada, pelo menos, em seus respectivos sites, poderiam acordar com um novo significado do que realmente é informação pública. Qualquer um que quisesse e entendesse de programação poderia resignificar e reinterpretar os dados.

Eu e mais alguns desenvolvedores, por exemplo, trabalhamos em um projeto que poderia ter ido adiante se tívessemos a tecnologia de grid disponível. Durante o Transparência Hack Day, pensamos em pegar todos os métodos de monitoramento do desmatamento da Amazônia do INPE e cruzá-los para que não fiquem confusos e fosse possível ver o real dano que as florestas passavam. O que nos impediu, porém, foi justamente a quantidade de informações necessárias para processar os dados dos mapas do instituto para transformá-los de forma muito mais amigável.

"O projeto tem como base três princípios: 1. computação voluntária, em que qualquer um pode ceder um espaço de processamento de seu computador; 2. desenvolvimento de aplicativos para rodar neste ambiente – o que é inédito no mundo, pois qualquer um poderá desenvolver formas de cruzar as informações; e 3. a replicação de dados por parte da administração pública", explica Daniela.

É para “brincar” com estes dados que a Dani vai lançar o projeto durante a Campus Party, para começar a articulação com governos e universidades (onde se encontram as principais pesquisas relacionadas à grid) e a mudança da percepção do que realmente é público.

Não estamos preocupados, agora, em como os órgãos do governo vão nos ceder estes dados. Queremos trabalhar com eles para ver o que faremos mais tarde. É aquele bordão: ‘give it to us raw, give it to us now’ (nos dê cru, mas nos dê agora, em tradução livre).

E isso não significa que o que será desenvolvido na iniciativa seja completamente novo, pelo contrário. “Qualquer um poderia fazer, mas teria que ter muito dinheiro e ser centralizado. O que queremos mostrar é que tudo isso de fato pertence às pessoas e não deve ficar à vontade do governo de liberar ou processar estes dados quando bem quer”.

Então, se você estiver na Campus Party ou pretende ir até lá, não deixe de ver a apresentação e o lançamento do projeto nesta terça-feira, às 20h, no espaço do BarCamp. E não deixe de baixar o programa para começar a ajudar a iniciativa!

* já falamos tanto

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Privar o quê? Ah, privacidade…


Descendo a rua Augusta, em São Paulo, eu e mais dois amigos músicos somos abordados por um grupo que acaba de passar por nós:

"Você não se chama Vinícius?", grita uma moça ao meu amigo.
"Sim".
"Você não passou o reveillon com o Leo?", questiona agora mais de perto.
"Passei sim", acreditando que se tratava de uma conhecida de um amigo nosso.
"Nossa, eu te reconheci pelas fotos do Flickr de uma tal de Gabriela!"
"Ah, a festa foi na casa dela. Você conhece o Leo de onde?"
"Eu não o conheço. Mas eu vou no show dele dia 27. Você vai também?"

Saímos da conversa meio atordoados. Uma mulher reconheceu o meu amigo por uma foto no álbum de uma menina, amiga de um cara que ela nem conhecia. Oi?! Pois é, nem a gente conseguiu entender direito a sequência que a levou a gritar o nome do meu amigo. Mas, de qualquer forma, fiquei matutando sobre a (falta de) privacidade na rede.

Encontrei uma frase, vasculhando na internet, que faz uma paródia à célebre de Andy Warhol que diz: “No futuro, todos terão 15 minutos de anonimato” (se alguém souber o autor, por favor, credite nos comentários que eu modifico aqui). Sem precisar forçar, por causa das novas tecnologias, estamos sendo vigiados praticamente em todos os momentos. É uma foto de celular aqui, um vídeo de uma câmera digital ali, uma mensagem no twitter de um amigo, e por aí vai.

Agora, imagine se todos os passos que você desse na rede fossem vigiados pelo seu provedor? E imagine se esse mesmo provedor fosse obrigado a guardar um registro de todos as páginas que você entrou nos últimos três anos? E que se a polícia quisesse acessar, poderia sem a sua permissão?

Era isso que o projeto de lei de Cibercrimes (mais conhecido como Lei Azeredo, por causa do senador Eduardo Azeredo) tentava aprovar, com um discurso de combate a pedofilia e outros crimes na internet. A sociedade até se mobilizou contra por meio de um abaixo-assinado com mais de 150 mil assinaturas (ainda está valendo, já que o projeto, por mais que tenha pedido força, pode ser aprovado pela Câmara).

O que se precisa para a rede, na verdade, não são diretrizes legislativas, ou seja, criar novos crimes para algo que já existe (uma das criminalizações que a lei do Azeredo criava era o preconceito digital, por exemplo… preconceito é preconceito em qualquer meio, seja na internet, na televisão, no rádio ou ao vivo), mas um documento civil.

Por causa disso, foi criado o Marco Civil da Internet, que foi elaborado com as opiniões e sugestões da sociedade civil. O debate ficou em aberto até o dia 17 de dezembro de 2009. Agora, advogados e especialistas formatarão um documento, que voltará à sociedade para ser comentado e modificado. Só aí será encaminhado para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

Vale acompanhar as discussões e sugerir mudanças. Não são só os geeks que podem – ou devem – colaborar. Afinal, se você está lendo isto, você é uma internauta. E o marco será feito justamente para garantir seus direitos.

Imagem tirada do flickr de codiceinternet

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Reflexões sobre um país (quase) conectado


É assim: o Brasil tem uma das piores conexões de banda larga do mundo*. E não só o serviço é ruim, como é caro**. O governo até tenta democratizar o acesso reduzindo o preço***, mas talvez o foco não seja bem por aí.

Os dados podem ser vistos de diversas formas. Por exemplo, o número de pessoas com acesso à internet. São cerca de 64 milhões de brasileiros conectados à rede. Ou seja, considerando que a população do país é de 180 milhões, cerca de absurdos 116 milhões estão fora do mundo conectado. Mas também essa quantidade conectada é maior do que a população inteira da França ou do Reino Unido.

Um dos grandes responsáveis por essa conectividade do brasileiro, incluindo as classes mais baixas, não é o ambiente de trabalho, como muitos podem imaginar, mas o centros de acesso públicos (gratuitos ou não).

Em 2009, o Comitê Gestor de Internet, por meio do NIC, divulgou uma pesquisa que demonstrava que cerca de 50% dos acessos à internet no Brasil vinham de lan houses e telecentros. Esse dado, por si só, já demonstra o poder que estes locais possuem na inclusão digital do país.

(Tenho ressalvas em usar o termo “inclusão digital” ou qualquer tipo de inclusão quando pensamos em trabalhos sociais. Ao crer que se deve incluir uma parcela da população em algum tipo de serviço ou estrutura, está intrínseco que uma outra parcela deverá ser excluída, justamente para o termo fazer sentido. Mas tudo bem – só uso pois é o termo mais comum).

O trabalho de Regina Casé, que aborda de alguma maneira a apropriação das tecnologias pela periferia, demonstrou quão importantes são esses centros de acesso até para a produção cultural popular. Hoje, as lan houses são consideradas pelas legislações de alguns estados como casas de jogo, ou seja, proibidas de ficarem próximas a instituições de ensino.

O grande problema, porém, é que o modelo de negócio atual destes locais não possuem sustentação. O tempo de vida médio de uma lan house é de dois anos. E as que se mantém depois disso, só conseguem graças a outros serviços prestados, como gráficos (como xerox e impressão) ou de café (venda de bebidas e quitutes).

Concluindo: quando se pensa em acesso à internet de banda larga no Brasil, não há como ignorar a importância dos centros de acesso públicos neste processo. Agora, como ajudá-los a melhorar ainda mais os serviços prestados? Talvez, aí sim, começar a usar um outro termo que não “inclusão digital”.

* piores conexões de banda larga do mundo
** caro
*** reduzindo o preço

Imagem tirada por WikiMapa

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Angra: como as redes podem ajudar?


E o ano começa com paisagens naturais um tanto quanto caóticas. As chuvas que acometeram várias cidades do Sudeste deixaram grandes consequências para as populações, principalmente as moradoras de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.

Segundo a Defesa Civil, foram confirmadas 47 mortes por causa dos deslizamentos de terra provocados pela chuva. Cinco pessoas continuam desaparecidas. Cerca de 220 casas foram interditadas por causa dos riscos de desabamentos. Há 125 pessoas desabrigadas e 113 desalojadas apenas em um dos morros da cidade.

Com este cenário de desastre, como as redes sociais e as novas tecnologias poderiam ajudar a essas famílias e a situação que foge dos controles de qualquer um? O Projeto Enchentes é um belo exemplo de que a rede pode ser usada para auxiliar inclusive em situações de calamidade pública.

Criado neste fim de semana, a ideia surgiu quando Cristiana Soares viu as notícias sobre a tragédia no noticiário do sábado à noite. Indignada com o sentimento de passividade diante da situação já que não tinha como ajudar diretamente, Cristiana entrou no serviço de microblogging Twitter e postou alguns comentários sobre o assunto, iniciando a discussão da ideia do projeto: “estou aqui pensando o que o twitter poderia fazer de concreto para ajudar vítimas das enchentes… as cidades que estão alagadas”. Logo em seguida, complementou: “não falo de caridade nem assistencialismo. Mas de uma real ajuda emergencial. Concreta. Sem ‘bonzinhos’ nem ‘coitadinhos’. #enchentes”. E a conclusão: “se o twitter não servir para um momento desse, para que mais poderia servir? #enchentes”.

A partir daí, diversas pessoas entraram em contato com Cristiana para ajudar na construção dessa plataforma. “Eu me senti meio boba colocando essas mensagens no twitter, mas as pessoas começaram a responder”, explica.

O projeto, para dar certo, foi subdivido entre editores, para que cada um fique responsável por uma demanda diferente e consiga orientar todas as informações que chegam. O principal objetivo do serviço é ser um local com informações, onde as pessoas saibam como agir nesta situação e o que está realmente acontecendo. Um exemplo é o mapa colaborativo criado para mostrar os pontos de alagamento, os deslizamentos de terra, locais de abrigo e pontos de coleta de doações.

Todos podem complementar as informações e acrescentar novos dados. “Qualquer um que quiser, pode ajudar. É só colocar os contatos na área de comentáros e o que quer fazer ou qual sugestão tem. Uma das ideias que tenho na cabeça é descobrir como conseguir rastrear as doações para evitar desvios”, exemplifica.

Se alguém quiser ajudar com o projeto, é só entrar em contato com os editores das seções:
Henrique Brandão: responsável pelo mapa;
Alexandre Feitosa: editor da seção “Serviços”;
Lucas Guedes: editor da seção “Doações”.

Colabore com a iniciativa!

Imagem tirada por Fractal Artist

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O feminismo em ondas


A luta e a discussão sobre a diferença entre gêneros podem soar como antiquadas para certos grupos da sociedade. Se a mulher já queimou o sutiã e mostrou a que veio, para que ainda falam e falam sobre a conquista do papel da mulher? (acredite, eu escutei esse questionamento de uma mulher)

A situação entre gêneros pode ser muito mais complexa do que a realidade de algumas regiões pode mostrar. Na África do Sul, por exemplo, o estupro contra mulheres é algo tão presente que até uma camisinha com farpas foi criada para conter os agressores. E, pasmem, em uma cidade em que a invenção foi apenas apresentada, a taxa de estupro caiu para zero durante três meses!

Conclui-se, então, que ainda há muito trabalho para diminuir as diferenças entre os gêneros. É para isso que existe a iniciativa Take back the tech. O quê? Retomar a tecnologia? Isso! A ideia é usar a rede (por meio de feeds, tags e trackbacks) para promover ativismo pelo mundo durante os 16 Dias de Ativismo Contra a Violência entre Gêneros, que vão de 25 de novembro a 10 de dezembro.

A campanha surgiu em 2005, quando o Programa de Apoio a Redes de Mulheres, da Associação para a Comunicação Progressiva, pesquisou a relação entre as Tecnologias de Informação e Comunicação e a violência contra a mulher e percebeu que não havia muita atenção sobre o tema.

O objetivo da iniciativa é criar espaços digitais que protejam o direito de qualquer um, seja homem ou mulher, de participar livremente e expressar sua opinião sem repreendimentos ou ameaças. Outra meta é promulgar os direitos da mulher em dividir conhecimentos e informações sobre e com as TICs.

Como? Para se ter um exemplo real, veja a célula brasileira da campanha: Retome a tecnologia. Na semana passada, por meio de um chat, houve a discussão sobre como as tecnologias tratam o estupro. A cada dia, dentro dos 16 de ativismo, são publicadas ações, discussões, temáticas, enfim, qualquer atividade que discusta ou que promova o tema.

Então, fique à vontade para usar os espaços em branco abaixo para dar sua opinião:

Como as tecnologias podem melhorar na luta contra a violência à mulher?

Imagem retirada do flickr de Morning theft

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COP-15: como dividir conhecimento?


E o mundo está voltado para a Dinamarca durante esta semana. Não é à toa. Talvez, a COP15 seja uma das mais importantes reuniões para o clima neste início de século (as outras, até agora, sempre foram um tanto quanto inconclusivas).

Um dos debates que poderão surgir e que me chamou a atenção foi a transferência de tecnologias entre os países ricos e os pobres. Teoricamente, os ricos, com tecnologia de ponta, transfereriam suas criações para os países, geralmente, do hemisfério sul, ou seja, menos providos, para que consigam melhorar seus modelos de desenvolvimento para um com menos impacto ao meio ambiente.

Agora, em um modelo econômico capitalista, como fazer essa transferência – que na teoria é linda – sem cair em um modelo exploratório camuflado de bem? Afinal, alguém terá que pagar por essa tecnologia, arcar com as despesas de transporte e de mão-de-obra qualificada e especializada (só os detentores da tecnologia, no modelo comum, consegue produzi-la).

O Brasil, porém, já mostrou que isso é possível com a quebra de patentes de medicamentos, principalmente os usados para o combate à AIDS. Mas não se precisa chegar a um último extremo – quebrar o que foi criado, com ações em órgãos mundiais e luta política – para conseguir transferir conhecimento, ideias e inovações.

Ideias e conhecimento existem para ser compartilhados. Eles não têm donos, não têm patentes, não tem modos de fazer. Surgem e devem ser repartidos, replicados e, quem sabe?, remixados para que outras ideias possam florescer.

Como fazer tudo isso? Além, claro, do uso comedido de patentes (que não foram criadas para sustentar sua família durante quase um século), há outros meios de licenciar ideias, por exemplo, que não impedirão sua obra de ser reproduzida – mas garantem que outros não a copiem. Sempre quando se fala de uma música, um filme, um livro, lembra-se do copyright, ou do direito de autor, que protegem, teoricamente, o conteúdo de ser explorado por outros indiscriminadamente.

As licenças Creative Commons são o campo cinza entre o preto (copyright) e o branco (domínio público). São opções mais brandas, que deixam você escolher qual o limite que uma outra pessoa pode usar sua obra. São boas opções para evitar com que o conhecimento fique restrito e para que ideias consigam florescer mais ainda.

Pode-se escolher pela reprodução total da obra, mas não para fins comerciais; ou que todas as derivações devam seguir a mesma licença. Enfim, o mundo é seu e as leis de direito de autor também! Um serviço na internet que utiliza bastante desse recurso – e até teve sua fama ajudada por isso – é o Flickr, no qual qualquer um pode hospedar suas fotos digitais.

E fica a pergunta: como proteger suas ideias na era digital? A resposta é simples: não proteja!

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A apropriação das tecnologias nas periferias


Uma das maiores questões quando se trata de tecnologias é o acesso por parte da população pobre. Afinal, há a impressão de que o acesso a computadores é tão caro que fica inviável para os integrantes das classes D e E entrarem neste mundo.

Quando acompanhei o TEDxSP, a palestra de Regina Casé me provou que apenas parte desse discurso é verdade, e quando há a necessidade, não há barreira econômica que impeça o acesso. Como? Por meio da produção cultural.

A música na periferia usa as novas tecnologias de uma forma espantosa. O mais interessante é que se vê que este uso é comum no Brasil, enquanto em outras terras, como o México, Angola e França, a pegada é outra.

Aqui, os DJs de Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, usam as lan houses (espaços privados de acesso à internet e computadores) para compor suas obras com artistas e produtores culturais de outras cidades. É uma composição coletiva, que a rede tornou possível e reduziu os custos. Se não fosse por isso, eles teriam que enviar o CD para outros locais, ou até se descolar para trocar experiências e sugestões.

Como questiona Regina Casé sobre a produção cultural da periferia, “a grande mídia tem um certo nojinho e acha que isso não é cultura, muito menos popular. E há a expectativa que eles parem de produzir e seja oferecida uma coisa mais chique – o que, na minha opinião, é preconceituoso e ingênuo”.

O mais impressionante é que ninguém entrou nas favelas e obrigou os moradores a usarem as tecnologias para produzirem e divulgarem os seus trabalhos. Elas, organicamente, surgiram como um espaço para a divulgação que antes não existia, por causa do monipólio da grande mídia na opinião da população.

O caso de maior destaque acontece em uma capital no norte do país, Belém, no Pará. Lá, os bailes da periferia, chamados de “aparelhagens”, são produzidas em estúdios minúsculos e sem muitos investimentos, além compactar as músicas em MP3 para divulgar o trabalho dos artistas. O modelo de negócio é focado no evento, e não na quantidade de CDs que foram vendidos. O ritmo? Vai do brega, passa pelo tecnobrega e chega ao cyber tecnobrega.

E quem os ensinou a usar isso? Ninguém. Como diz um dos entrevistados dos vídeos abaixo, “eu aprendi a usar o computador na marra”.

Imagem retirada do flickr de Henrik Moltke.

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Programando as paisagens

O homem, desde quando apareceu na Terra, modifica o ambiente em que está inserido: seja para conseguir se proteger da chuva, caçar ou, até, plantar para seu próprio sustento. O ambiente a sua volta está em constante mudança. Isso, porém, não significa que seja sempre predatório. Pelo contrário.

Quando há chuvas, pode haver alagamentos, que modificam o solo da região. Quando há ventanias, árvores são tombadas. Quando há geadas, diversas espécies de plantas são danificadas. Teoricamente, é o ciclo natural dos seres vivos, com a natureza atuando em um ecossistema repleto de biodiversidade (não é à toa que James Lovelock considera o planeta como um ser vivo também).

A progressão de crescimento da população, porém, trouxe à própria sociedade a ideia de que a ação do homem deixou de ser natural, para se tornar algo invasivo ao meio ambiente. Sempre. Árvores são cortadas para dar lugar a prédios. Rios são soterrados ou canalizados para que cidades consigam se expandir. Plataformas são criadas no meio do oceano para extração de matéria-prima a milhares de quilômetros abaixo da terra.

O homem, agora, modifica brutalmente a paisagem em que está inserido. O fotógrafo norte-americano Edward Burtynsky anda pelo mundo coletando imagens de exemplos de como a ação do homem está fabricando a paisagem do mundo. A foto acima, por exemplo, demonstra a troca de uma área de pradaria por centenas de máquinas extrativistas de petróleo.

Há uma outra paisagem, porém, que foi criada pelo homem e que pode ajudar a transformar o mundo – aliás, já o está transformando. A sociedade agora está mais em rede do que nunca, graças à conectividade à internet. E essa tecnologia, como qualquer outra, é ambivalente: pode ser usada tanto para melhorar, quanto piorar o mundo.

O blog Paisagem Fabricada mostrará como essas novas tecnologias podem ser usadas para um fim social. São diversas iniciativas, pessoas, informações e tudo que envolve este mundo tecnológico que tentam e pregam a mudança na paisagem atual, de forma ordenada e racional – como códigos binários. O mundo conectado é extremamente versátil, modular e adaptável às necessidades do mundo – ao mesmo tempo que demanda outras necessidades.

Hoje, modelos de negócios estão sendo reformulados pelos conceitos e morais espalhados pelo ciberespaço. Novas formas de relação entre sociedade civil e candidatos à presidência surgem graças às demandas da sociedade. Questiona-se a própria forma de se questionar – e organizar.

Muitas ações que são produzidas no mundo digital visam modificar – para melhor – o mundo real. Só cabe a nós programarmos nossa própria paisagem da forma que desejamos.

E sejam benvindos!

Outros links
Edward Burtynsky  – http://www.edwardburtynsky.com/
Sociedade em rede – http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Castells
Novos modelos de negócios – http://portalliteral.terra.com.br/lancamentos/tecnobrega
Novas formas de relação – http://www.barackobama.com/