# paisagemfabricada

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dreams

É neste prédio. É aqui que eles estão a prendendo. Pela porta principal, claro, seria impossível entrar sem causar muito alarde. Temos que achar alternativas. Você, que é menorzinha, suba pelo cano de ventilação e tente chegar à cobertura. De lá, a gente vê o que faz. Eu vou logo em seguida. Ei, você, qual é o plano? Quantos a gente tem? Certo, mas quem vai pela frente e quem vai por trás? E quantos são lá dentro? Certo, vocês vão com as facas pela frente e eu fico aqui para proteger a retaguarda. Se alguém sair ou entrar do prédio, eu garanto que não vai muito longe. Embora a gente não use armas de tiro, as facas resolvem muito bem.

Ei, você está bem? “Eu quase morri, escorreguei do tubo de ventilação. Foi por um milagre que consegui chegar aqui”, narrou. Ok, então, já vi que eu subir pelo tubo também não vai adiantar. Cadê o carro? Eles já devem estar prontos, temos que preparar a fuga. “A gente está precisando de ajuda aqui pela entrada principal, venha!”, pediram. Não, não vou. Não serei muito útil com poucas pessoas no time. Preciso que se tenha um grupo bem formado para invadir uma área apenas munindo facas. Aborte a parte da frente e vamos nos concentrar na parte de trás.

Elas chegaram. Bem na hora que o carro se aproxima. Coloque-a aí dentro e suma do mapa. Eu sairei andando e garantindo que está tudo tranquilo. Ei, por que você está cortando a sua garganta com um cutelo?! “Vai ficar tudo bem, só garanta que a polícia e a ambulância cheguem a tempo”. Mas que ideia estúpida! Eu sou criminoso e ainda tenho que chamar a polícia! Jogo o meu facão e ando pela rua com a maior cara de inocente. “Onde você está indo?”, pergunta a detetive que me para na calçada. “Estou só andando, deixe-me passar”. Ela não se convence, mas não tem provas para me deter. Viro a esquina e encontro duas viaturas da polícia. Aceno. “Hey, you need to go that way, there is a woman severely hurt in the street! Call an ambulance and go there!”, chamei, sem saber o porque da mudança de língua. “Are you part of PT or PSDB?”, indaga uns dos policiais. “Eu não tenho partido político, apenas sou”. E saí andando.

A detetive, porém, não queria me perder de vista. Senti que ela estava me seguindo a poucos metros de distância. Entrei correndo em um prédio com diversas escadarias. Em pouco tempo, a detetive me alcança e me detém. Droga de escadas e como ela consegue subir tão rápido? Ela deve ser muito veloz em obstáculos. Ela pega o seu rádio e chama mais uma viatura para me levar à delegacia. Todas as viaturas estão ocupadas. Ela discute com alguém e dá alguns passos para longe de mim. É a minha deixa. Saio correndo e subo várias, mas várias escadas em diversas direções. Depois, sabendo que ela não esperaria que eu descesse pelo outro lado, desço correndo desesperadamente, pulando degraus e, às vezes, lances de escada inteiros. Vejo um poste de ferro iguais aos que se têm em alguns bombeiros, e desço sem nem saber a extensão ou onde vai dar.

Caio dentro de um apartamento, com diversos beliches e muitas pessoas conversando. Caio sentado em uma das camas, onde uma menina loira e com cabelos não lavados, com uns 18, 19 anos, está sentada. Ela puxa papo como se fosse a coisa mais comum alguém aparecer no apartamento do nada. “Tudo bem?”. “O que é isto daqui?”, respondo. “É uma casa, onde a gente dorme”. “Quantos moram aqui?”. “Umas 20, 25 pessoas, dependendo do dia. A gente sempre está aberto a novos integrantes, como você pode ver” e aponta para cima. Vejo um buraco no teto por onde uma luz solar entra, deixando o ar muito mais leve. Uma criança negra, com olhos grandes, está no lado de fora do buraco, segurando em uma das grades vermelhas. “A gente é bem aberto.” “Quanto vocês pagam?”. “Ô, vai com calma. Respondo as perguntas tranquilamente, mas você não está muito bem não.” Não, não estou muito bem. Uma detetive está me seguindo, uma amiga acabou de cortar o pescoço com um cutelo e, aparentemente, faço parte de uma facção criminosa, mas nada disso eu posso falar contigo. “Eu, às vezes, sou bem pragmático. Desculpa”.

Acordei.

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Depois de anos, voltei às piscinas. Desta vez, não apenas como um aprendiz ou mero exercício aeróbico, mas sim um atleta de diversas modalidades que possuem a água como campo para suas atividades. Fazia parte de um time, de cerca de 8 participantes, que competia em um campeonato inter-clubes. Enquanto que para eles tudo era de extrema importância, para mim era apenas um hobby, algo que fazia por prazer embora que profissionalmente. Meu treinador era meu maestro em realidades outras.

Andando para ir à piscina, alguém tenta falar comigo. Eu estou rindo e me divertindo, seguindo meu treinador seríssimo, enquanto esta outra pessoa tenta me entrevistar e questionar sobre as minha táticas. Eu nem sei direito o que ela está falando, mas parece que eu sou a carta na manga do time, o atacante, o que resolve e classifica o time inteiro. Para mim, eu só vou lá e nado. Nada demais. Andando, percebo que é difícil entender o que a outra pessoa está falando. Quando vejo, estou com dois tampões de ouvido, um em cada lado, de acrílico. Retiro o esquerdo e vejo quão sujo ele está. Não é apenas cera produzida pelos meus tímpanos, mas algas, cartilagens, e outras coisas que me deixavam na dúvida se era do meu ouvido ou uma sujeira externa. De qualquer forma, me apresso a limpar antes que alguém repare, já com vergonha de toda a situação.

Meu treinador me escoltava para o vestiário de forma a garantir que eu me trocasse. Aparentemente, eu tenho a fama de chegar atrasado e não me importar muito. Mas como era uma competição séria, se eu me atrasasse não poderia participar. E ninguém queria isso. Acho.

Me troquei, corri para a piscina, o campeonato começou, participei de 5 das 8 atividades, ganhei 5 das 5 que fiz parte e bati o recorde no nado livre. Tudo bem tranquilo e sem se importar muito. Ganhar esta fase garantia que nós chegássemos na final, o que nunca tinha acontecido com o time antes. Mas ninguém comemorava como sendo uma façanha. Estavam todos muito concentrados com o que deveriam fazer e as expectativas foram trocadas por técnica e raciocínio lógico.

No dia da final, cheguei ao clube onde seria a competição e percebi que esqueci minha roupa de nado. Sem sunga, sem óculos, sem touca. Desespero. Conversei com o treinador e disse que poderia comprar uma na loja do clube. “É muito caro”, respondeu. “Quanto?”, “Uns R$ 150, R$ 200”. É, estava totalmente fora do meu orçamento gastar esta quantia com apenas uma sunga. “Não tem problema”, continuou o treinador, “eu preciso comprar uma outra sunga de qualidade e te empresto para hoje”. Resolvido. O problema: faltavam apenas 15 minutos para começar a competição e eu ainda nem tinha roupa de banho para entrar na piscina. Saí correndo em busca da loja e para achar a sunga. Não ia dar tempo. Já estava pensando em entrar de cueca mesmo e resolver o problema. Não podia, ia ser desclassificado. Quando eu cheguei na lojinha do clube, um gigantesco placar com luzes laranja, vermelha e verde marcava os pontos de cada time. Olhei o cronômetro: 3… 2… 1. Começou. Eu não poderia mais participar e meu time teve que ir à final sem mim.

Acordei.

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O Rio de Janeiro vai ser demolido inteiro.

Quando eu digo inteiro, é literalmente in-tei-ro. Só que o Rio não era apenas uma cidade grande de praia, pelo contrário. Era uma ultra-megalópole futurista cheia de viadutos e construções, com uma população gigantesca. Sua disposição, porém, era igual de Nova York, com uma ilha central e mais quatro distritos no continente. E todo mundo precisava ser evacuado.

A cidade seria reconstruída de forma ordenada e muito menos, digamos, orgânica. Foi o meio encontrado pelo governo para resolver os problemas urbanísticos da cidade e tentar criar uma cidade mais justa.

Hoje era o último dia de remoções e evacuações antes de a total implosão da cidade. Mesmo sendo o último dia, o governo resolveu implodir já algumas áreas e edificações antes da total remoção da população. O que se via e se ouvia pela janela do apartamento era um sequência de destruições e barulhos de bombas. E tudo era uma festa.

Desci à rua com um amigo para ver de perto como a cidade parcialmente demolida tinha ficado. “Eles deveriam ter colocado uma trilha sonora nos alto falantes públicos ao invés daquela voz chata mandando a gente fazer coisas”, disse-me um amigo ao lado de duas fontes com jatos d’água. “Como uma orquestra?”, perguntei. “Como uma sinfonia de Chopin”, respondeu.

Nenhuma festa está completa sem bebida. Voltei a casa de minha tia, que já tinha saído da cidade, para pegar alguma bebida em seu bar. Reconheci meu primo que há muitos anos não vejo. “Se você o contrário, nunca te reconheceria”, confessou-me. “Eu não esqueço minha família”, disse sorrindo. Entre as garrafas de destilados, só tequila. Não estava afim de celebrar com shots, mas sim com algo que pudesse degustar. Um bourbon, talvez. Procurando entre as garrafas uma família entrou no aparamento rindo e celebrando. Queriam ver se conseguiam achar algo interessante que foi deixado para trás. “Só vou pegar a minha garrafa e já vou sair”, avisei. Peguei uma garrafa de Red Label e disse para o meu primo que era melhor já sairmos da cidade.

Ao procurar os carros, reparei que os viadutos e as vias tinham trilhos, como se os carros fossem parte elétricos como trens e parte a combustível. Além disso, os veículos eram conectados em pares, sendo apenas possível trafegar com dois ao mesmo tempo, mas reduzindo o espaço consumido nas vias.

Ao entrar no viaduto que levava à saída da cidade, dava-se para ver os cemitérios de automóveis abandonados. Um verdadeiro horizonte caótico, como se tivesse ocorrido um grande desastre, se não fosse pelo clima de festa e felicidade das pessoas. No meio do trânsito, que estava muito menor do que a gente esperava, ambulantes vendendo garrafas de água por R$ 14. O engraçado é que os preços estavam escritos em chinês ou em inglês. “Será que alguém realmente compra por este valor? Estes imigrantes querem ser espertinhos”, disse rindo ao meu primo. Quando nos desvencilhamos do trânsito, uma super-rodovia com umas 10 pistas a nossa frente, com o sol no horizonte nascendo.

Sorri.

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E aí eu estava em um galpão gigante dividido em 10 salas bem retangulares, sem portas ou paredes na parte da frente e com um corredor interligando-as. Em cada uma havia centenas e centenas de alunos. As áreas de estudo, ao que me parecia, eram somente relacionadas às ciências exatas. Eu tinha a impressão que fazia parte da área de Matemática e estava fazendo algum tipo de prova ou exame. Me levantei e fui conversar com um professor de uma outra área, acredito que Física. Ao chegar lá, avisto uma professora e intelectual gritando com o professor com quem deveria falar. Ela, com seu 1,50m de estatura, rechonchuda, parecendo ter uma mistura indiana e caribenha, esbravejava que era um atento contra a liberdade proibirem sua pesquisa em Física por a classificarem como subversiva. Eu tinha a total certeza que não eram só subversivas suas teorias, mas também revolucionárias. O professor com quem eu deveria falar tentava acalmá-la e, nisso, me envolveu no meio da conversa para ajudar na situação. Nos direcionamos para uma sala envidraçada perto da classe número 1 para ter uma conversa mais privada. Gritos de “terrorista”, “traidora”, “morte” foram ouvidos durante o trajeto. Fechamos a porta. As paredes envidraçadas, então, se transformaram de concreto. E tiros, muito tiros podiam ser escutados. No lado de fora, começou uma guerra entre os professores e alunos considerados “terroristas” contra um grupo de governo repressor. Mais tiros. Muitos tiros de todos os lados. Sem conseguir resolver a situação dentro daquela sala minúscula, decidi sair para ver o que estava acontecendo. Balas passavam em minha frente formando linhas prateadas fulgazes. Ao meu lado direito, uma sala com a porta fechada onde estaria o grupo governamental repressor. Em um ato de total ansiedade para resolver a situação, arrombei a porta para vê-los e entender melhor a disputa. Vi, de relance, uma faixa preta com escritos brancos em um alfabeto que desconheço e escutei um grito de comando um segundo antes de ser alvejado por balas por todos os lados. Consegui sair da linha de tiro e fui caminhando em direção à saída. Uma escada com uns 25 degraus, onde algumas pessoas estavam esperando o conflito acabar, levava à saída. Ao subir os primeiros degraus, não resisti ao cansaço e deitei chorando, como se a ausência do medo era somente momentânea e que, depois dali, muita coisa ainda teria que ser feita.

Acordei por causa da força do choro.

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Uma tia-que-não-era-tia-mas-era-tia era diretora de um grande museu. Ela faleceu e deixou a administração para que eu fizesse, embora a gente nunca tinha sido muito próximo. Não sei quanto tempo se passou, mas organizei um evento em sua homenagem para inaugurar umas escadas que terminaram de ser concluída e facilitavam muito o acesso ao museu e às obras de arte. Eu estava inconsolável. Minha tia tinha gastado a fortuna da família (cerca de R$ 2 milhões) para construir as tais escadas. Ao falecer, a obra ainda precisava de investimentos. Sem opção, usei toda a verba que eu tinha ganhado de um prêmio para concluir os trabalhos. Não conseguia nem me aproximar de onde o evento estava acontecendo. Chorava, chorava e chorava. Foi quando um segurança me viu e se aproximou, perguntando o que houve já que aquele dia deveria ser de alegria. Expliquei que o museu não tinha dinheiro para esta obra e que eu e minha tia colocamos verbas pessoais para que ela fosse possível. “Quanto?” Uns R$ 3 milhões. Chorava e dizia: “de que adianta ser patrono ou defensor das artes se nem meu aluguel eu consigo pagar?” Depois de ter falado com ele, ainda com as lágrimas no rosto, fiquei com a questão de acesso na cabeça e pensava em qual era o limite entre fornecer acesso e viver. De que adianta dar o acesso a outras pessoas se você mesmo é penalizado por tudo? Quem é que deve ter direito ao acesso? E qual acesso deve ser o prioritário: o às artes ou o à vida?

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Ok, sonhei que eu trabalhava para um vampiro e havia uma distinção entre seus empregados: os do mal-mal e os do bem. Eu era do bem. Daí eu tinha que ir a uma montanha onde deusas de pedra matavam todos que tentavam trafegar por sua encosta. Várias pedras se juntavam e formavam um ser meio antropomórfico que deslizava pela montanha e ia matando as pessoas. Ao chegar lá, descobri que elas eram imortais, já que a deusa era a própria montanha. Explorando o local, descobri uma passagem secreta, onde havia várias fantasias bizarras que nada tinham a ver com a história. Lá dentro, uma empregada do mal guardava e administrava o local. Ao vasculhar a passagem secreta, encontrei uma porta emperrada. Desemperrei e entrei em uma espécie de resort *dentro da montanha* com piscinas, sol e toda a mordomia do mundo. Saí correndo para a piscina junto com mais outros empregados do bem e me transformei em um macaco (mais para chimpanzé). Ficamos brincando e tudo o mais, até que eu vi duas irmãs gêmeas do outro lado da piscina, loiras e de biquini. Perguntei quem eram. Responderam que elas não eram mulheres per se, mas possuíam os dois sexos, alternando quando quisessem. Voltamos para a farra na piscina e, aí, tentei me transformar em um cisne. Durante a transformação, ficou a dúvida se usava o Pato Donald como referência ou o próprio animal. Optei pelo animal. Fui nadar, só que o meu cisne estava meio torto e a minha cabeça ficava mais dentro do que fora da água. Voltei ao estado normal e avisei a empregada do mal: “eu vou é morar aqui a partir de agora, e não naquele castelo sombrio”.

Acordei. E parabéns!

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Chegou recatadx. Veio para uma entrevista, e sentou-se com delicadeza de pernas cruzadas. A sócia apontava rindo e dando pulinhos, com saltos que diziam “é essx que eu quero!”. Só x vi de costas, com seu tronco esguio, seios pequenos, cabelos negríssimos e corpo levemente acentuado. Os óculos seguravam as madeixas para salientar a dicotomia dos olhos. Quando x vi de frente, lembrei rapidamente do cantor que tem o primeiro nome de diva e o segundo de um serial killer. Olhos de cada cor. Lábios meio sem local no meio da cara. Dentes um tanto quanto afiados. E a brancura de uma candura para lá de pura.

De cara, ao contemplar aquelas costas alvas, sabia que elx seria encarregadx de todos os trabalhos burocráticos do círculo que se criava. E, depois de mentalmente afirmar a resolução, x escutei trovejar reclamações em prol da empresa.

Contratadx.

Acordei.

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