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Planeta Sustentável

Como eu disse lá no primeiro post, as paisagens estão em constante mudança. Seja por fenômenos da natureza ou pela ação do homem, o mundo ao nosso redor se modifica a cada segundo. E, agora, chegou a hora de esse blog mudar de paisagens.

Este é o último post do Paisagem Fabricada com este formato e hospedado no portal do Planeta Sustentável. Foram três anos mostrando iniciativas que modificam os códigos para provocar mudanças sociais. Informações que tentaram decifrar o que há por trás da rede, da tela, do computador, que poderia alterar a sociedade como percebemos.

Para esta última mensagem, deixo como exemplo a Constituição colaborativa da Islândia. Em vez de decidir os rumos do país por meio de políticos em prédios fechados e decisões arbitrárias, o governo permitiu com que os cidadãos opinassem na elaboração de uma nova Constituição por meio de Facebook e Twitter. Foram cerca de 117 mil pessoas colaborando para que a nova carta de diretrizes do país fosse composta.

A abertura do governo foi uma resposta à crise de 2008, em que o estado se viu afundado em dívidas com bancos provocadas, em grande parte, por causa da corrupção dos políticos. Já que eles não conseguiram livrar o país da crise, passaram o bastão para os cidadãos, que criaram uma Constituição que traz ao estado maior controle dos recursos naturais da região – e não mais deixa nas mãos das empresas exploradoras.

O país, agora, parece estar em uma situação econômica bem melhor. A Constituição, embora já criada (pode ser lida na tradução em inglês aqui), só será votada entre abril, maio de 2013. Mesmo assim, é um belo exemplo de como o cidadão comum pode mudar o rumo de uma nação inteira, fabricando novas paisagens para o futuro.

O trabalho deste blog continuará no domínio www.paisagemfabricada.com.br. Além de iniciativas que envolvam as tecnologias para fins sociais, ainda comentarei sobre outros processos que fabricam e programam novos mundos. Uma nova perspectiva.

Vejo vocês por lá! 🙂

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Virou moda sites que brincam com o autocorretor do celular. São diversas páginas simulando piadas com as sugestões que o aparelho dá na hora de digitar uma mensagem, como mostra o Damn You AutoCorrect. Mas os algoritmos por trás dessas funcionalidades causam muito mais do que piadas.

Um artigo no New York Times desse domingo, escrito por Evgeny Morozov, discute o quanto a nossa cultura pode ser moldada apenas por essas sugestões e trocas automáticas de palavras na rede. Para ilustrar, o autor cita o caso do livro da Naomi Wolf que teve a palavra “vagina” censurada pelo iBooks da Apple. Em vez da palavra completa, o serviço de compra de livros eletrônicos publicou o título como “V****a”. Parece uma troca boba, afinal é uma palavra totalmente aceitável e respeitosa na sociedade contemporânea, mas é um sinal de que o controle sobre a nossa língua fluente não está mais no uso e, sim, na seleção que as empresas fazem. No caso citado, leitores questionaram a decisão da Apple e pediram para publicar a palavra sem censura, mas quantos casos similares acontecem e não sabemos?

Outro exemplo que Morozov comenta é a censura que o Facebook impõe às imagens consideradas pornográficas ou ofensivas. A rede social possui um algoritmo que analisa as imagens publicadas e identifica possíveis situações, digamos, não pudicas. Dessa vez, o serviço tirou do ar uma tirinha em quadrinhos da revista norte-americana The New Yorker, que mostrava Adão e Eva (eles mesmos!) no Éden. O problema: mamilos. De acordo com a política da rede social, qualquer imagem contendo mamilos ou, ér, o famoso “cofrinho” será retirada do ar.

Por trás de atitudes como essas, há a criação de uma cultura de policiamento. Um usuário, por exemplo, que é censurado vários vezes por postar a foto de um bebê tomando banho pode passar a acreditar que, realmente, o conteúdo é ofensivo. A mesma situação pode ser aplicada ao nome do livro. Se for padrão a Apple trocar algumas palavras por asteriscos, editoras poderão evitar usar certas expressões para não ter que se preocupar, e assim, aos poucos, a decisão pode virar uma norma. A palavra original deixa de ser usada e a sugerida pela empresa vira padrão.

O mesmo se aplica ao autocorretor dos celulares. Se todas as vezes que se tentar digitar uma mesma palavra (como “merda”, “vagina”, ou qualquer outra) o algoritmo decidir trocar por uma nova, o usuário, conforme o uso, ficará propenso a já usar a alteração do que esperar o aparelho indicar a mudança. Essas palavras, então, poderão ser vistas como ofensivas ou cair no desuso.

E, como diz o artigo, se antes os gatekeepers (ou os selecionadores de conteúdo) eram os jornalistas, editores e formadores de opinião, hoje, há também o algoritmo para decidir e delinear a nossa cultura. E o mais problemático é que esses algoritmos têm seus códigos fechados, o que deixa as regras e os critérios de seleção apenas acessíveis às empresas que os criaram. Nós, os usuários, não temos como interferir. Fica-se, então, a mercê do que uma organização privada, muitas vezes de um outro país, decide como sendo o correto.

Mesmo com a possibilidade de se customizar a ferramenta (ou seja, acrescentar as palavras e “ensinar” o algoritmo o que deve ou não ser trocado), o acesso do usuário é muito limitado e exige bastante paciência.

No fim, fica a pergunta: quem define o que é o correto no autocorretor?

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A licença compulsória de patentes realizada pelo governo brasileiro para fornecer tratamento contra os sintomas da AIDS é um exemplo de como a abertura de patentes e dados pode melhorar a saúde de milhões de pessoas. E o que aconteceria se os tratamentos de pacientes não ficassem restritos somente aos médicos e profissionais contatados, mas a qualquer um que tivesse interesse?

O italiano ativista de mídia Salvatore Iaconesi fez isso. Em setembro de 2012, durante testes de rotina, ele foi diagnosticado com um glioma, um tumor no sistema nervoso central. Quando pediu os dados dos exames para analisar e poder levar para outros médicos, reparou que todas as informações usavam formatos que exigiam programas complexos, caros e acessíveis apenas para os profissionais da área. Ou seja: pessoas com outras profissões praticamente ficavam impedidas de ter acesso aos dados que os exames traziam. Como, então, ele poderia confiar no que o médico dizia se nem ele poderia entender a sua própria condição?

Por causa disso, decodificou todos os exames e os publicou em formatos abertos, acessíveis por meio de programas mais populares para que, assim, qualquer um pudesse analisar o que acontecia com seu tumor. O projeto ganhou o nome de La Cura, como um chamado para que as pessoas sugerissem curas ou tratamentos para sua condição.

Em pouco tempo, as respostas: um trabalho artístico com a visualização dos dados de seu tumor, 35 vídeos criados com as imagens de seus exames, quase 600 poemas dedicados a ele, 15.000 depoimentos de estímulo e sugestões sobre tratamentos, 60 médicos entraram em contato para dar suas opiniões (sendo que 40 deles foram avaliados por outros 500 visitantes contando suas experiências com aqueles profissionais), extraordinárias 50.000 opções de estratégias de tratamentos (que vão desde terapia tradicional a até magia) e 200 pessoas o ajudando a classificar todo o material recebido.

“A primeira coisa que se repara no hospital é que eles não estão conversando com você. Linguagem médica é difícil e complexa, e eles quase nunca tentam fazer algo para que seja mais fácil de se entender. (…) é uma evidência explícita da maneira como a medicina trata seus pacientes: se para de ser ‘humano’ e se torna uma série de parâmetros para um arquivo médico que segue certos padrões e protocolos”, conta Salvatore em uma entrevista.

É impressionante notar que é só mudar a linguagem, torná-la um pouco mais acessível, para que outras pessoas possam se engajar na luta. Graças à tradução, Salvatore deixou de ser apenas um paciente, ou como ele diz, “um caso”, para se tornar alguém de carne e osso com uma condição: estar doente. Ele não é a doença, mas ele está com ela.

E qual o resultado?

“Depende da perspectiva que se olha. Do ponto de vista médico, eu tenho um glioma de baixo-nível com uma intensidade indefinida, entre 1 ou 2 (nós temos que esperar novos exames para ter certeza). Do ponto de vista humano: eu estou bem! Não tenho sintoma aparente. Eu só preciso tomar cuidado, porque se eu entrar em situações estressantes, eu posso encadear um ataque epiléptico. Por isso, não é recomendável eu dirigir ou coisas do tipo – o que é a perfeita desculpa!”

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Eu pareço um disco quebrado, mas lembram da lei que ficou conhecida como Carolina Dieckmann por causa do roubo de informações do computador da atriz global? Pois bem, foi aprovada no Senado! E sabe o que significa? Que estamos a um passo de criar a situação de vigilantismo tão evitada e lutada contra durante a ditadura (até por isso que uma outra lei similar, a Lei Azeredo, ficou conhecida como AI-5 Digital).

Até agora, por ser apenas uma hipótese e nada muito concreto, era difícil entender o que realmente poderia acontecer se a lei fosse aprovada. Esta semana, porém, presenciei um fato que demonstra o quão preocupante e limitador será a partir de agora. Depois que entrar em vigor, não se poderá mais apontar erros e discutir problemas de segurança em um site. Se você, sem querer, descobre que substituindo um número do endereço de um site consegue ter acesso a um conteúdo de um outro usuário, e pergunta sobre esse problema em um fórum, por exemplo, você pode ser condenadx a passar de seis meses a um ano na prisão. Isso mesmo! Isso é classificado pelo artigo 209 como invasão de sistema: “Acessar, indevidamente ou sem autorização, por qualquer meio, sistema informático protegido, expondo os dados informáticos a risco de divulgação ou de utilização indevida.”

Repare que não foi nenhum ataque ou tentativa de invasão. Não foi um hacker, um cracker ou qualquer pessoa mal-intencionada querendo obter dados de outrém. Foi apenas uma coincidência. E, nesta coincidência, a Justiça pode te levar à cadeia!

E, mais uma vez (alguém falou em disco quebrado?), volto à importância do Marco Civil da Internet, que vai e volta da pauta dos políticos, e até agora nenhuma resposta definitiva sobre a aprovação ou não das diretrizes. O marco é uma ação civil que orienta o uso da rede. Em vez de tipificar crimes, o marco protege os direitos dos cidadãos, como a neutralidade da rede e a proibição do vigilantismo.

Se a sociedade não pressionar mais, daqui a pouco, teremos que prestar muita atenção a até os e-mails que mandamos aos amigos.

Benvindo ao policiamento virtual!

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E é comum termos aquela sensação de que temos que mudar o mundo, mas não sabemos por onde começar. Então, lembre-se: talvez existam pessoas que saibam como, e só precisam de um empurrãzinho seu para atingir a tão almejada mudança.

Se você ainda não conhece, eu já falei sobre o Catarse várias vezes por aqui. Por meio dele, vários projetos legais saíram do papel, como o Cidades Para Pessoas (que, agora, até virou meu vizinho), o Ônibus Hacker, o Festival BaixoCentro e o queridíssimo Pimp My Carroça. E tantos outros. O Catarse é uma poderosa ferramenta para fazer com que mesmo aquele projeto minúsculo-fundo-de-quintal consiga a verba necessária para ser realizado. Todo mundo fazendo o melhor para produzir, construir e, afinal, mudar.

O lance é que, às vezes, muitos projetos bem legais ficam perdidos na quantidade de tantos outros por aí. Muita informação e poucos filtros. Por causa disso, farei uma seleção de projetos que considero bacanudos e que envolvam os novos fazeres, as novas tecnologias e as novas preocupações do mundo contemporâneo. Serão algumas indicações, vez ou outra, para que você saiba onde investir aqueles R$ 10 economizados das caronas que você pegou em vez de usar o seu carro, ou do restaurante por quilo que ficou mais barato por causa da sua alimentação mais saudável.

Hoje, focarei na produção audiovisual: filmes, curtas, documentários e até equipamentos em hardware livre. São quatro projetos que, creio, valem o investimento e que são necessários sair do papel.

Vamos lá!

Domínio Público

Os investimentos que acontecem no Rio de Janeiro por causa dos jogos esportivos (Copa e Olimpíadas) são extraordinários. A cidade virou um canteiro de obras para deixar tudo pronto para 2014, quando a Copa ocupará os estádios e trará milhares de turistas para a capital carioca. No meio disso tudo, porém, a população de baixa renda está sendo severamente afetada – e ninguém fala nada. O documentário “Domínio Público” quer criar um registro histórico do que acontece nos morros e favelas cariocas por causa das mudanças causadas pelas obras em infraestrutura. Mesmo que se não consiga mudar a situação, já por deixar esse registro para a história o projeto vale o seu investimento.

Pinheirinho um ano depois

Enquanto o Rio passa por desapropriações por causa da Copa, São José dos Campos passou por uma desocupação que assustou o Brasil inteiro. Centenas de famílias carentes tiveram suas casas destruídas e precisaram abandoná-las da noite para o dia por causa de uma ordem judicial. O que deveria ser um trabalho de assistentes sociais e com encaminhamento já adequado, virou uma operação policial violenta e chocante. O documentário quer mostrar as condições que as famílias expulsas da área passam hoje, um ano depois do acontecimento. Como diz o senador Eduardo Suplicy, “é muito importante nós termos conhecimento dos episódios tristes de quando foi realizada a reocupação do Pinheirinho, uma vez que ocorrem dezenas de casos como esses a cada mês, a cada ano, sem que se dê a devida atenção aos direitos sociais dessas pessoas, dessas famílias.”

Floresta Vermelha

Um filme de ficção brasileiro (já começa bem) feito exclusivamente com softwares e hardwares livres (ficou melhor!). E, mais ainda, com o que pode ser considerada uma câmera Super 8 digital (genial!). O projeto não é só legal pelo resultado, mas também pelo conteúdo que será produzido graças às experiências dos participantes. Toda a equipe está se aventurando no projeto, ou seja, não possuem grandes experiências profissionais nas áreas que atuarão. Mas eles prometem deixar o registro de todas as descobertas (especialmente sobre os percalços com os programas e aparelhos) para que outras pessoas possam fazer o mesmo. Experimentando e compartilhando! Quer mais?

Simulacro, o Filme

Faltam apenas quatro dias para acabar a arrecadação! E a grande pergunta por trás do documentário é: por que as pessoas se tornam tão viciadas em jogos de simulação, estratégia e RPG (Role-Playing Game)? A ideia é explorar a vida desses jogadores e tentar entender um pouco dos motivos que fazem os games (uma indústria que cresce cada vez mais no Brasil) tão populares em certos nichos.

E aí? Em qual(is) deles você vai investir?

Ilustração feita por Pablo Carranza, que faz parte do livro “Se a vida fosse como a internet

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Você sabe quem foi que inventou o primeiro algoritmo a ser lido por uma máquina? Sabe quem é a pessoa identificada como a primeira programadora de computador? Em um mundo matemático com grande maioria de homens, a inventora de tudo isso é uma mulher: Ada Lovelace. O dia 16 de outubro é a data para celebrar sua vida e a inserção de mulheres no mundo científico.

Ada, além de levar o marco histórico de primeira programadora, é também a única filha reconhecida do grande poeta britânico Lord Byron. Sua vida foi marcada pela separação dos pais (o que, para a época, era algo altamente peculiar), a negação de sua mãe em criá-la (grande parte de sua vida foi passada com sua avó) e condenação da figura do pai (que ela nem conheceu, já que Lord Byron faleceu quando ela tinha apenas oito anos). Sua mãe, mesmo distante, orientou para que Ada tivesse uma educação focada em matemática, por crer que os números poderiam suprimir qualquer loucura que a filha tivesse herdado do pai. Assim, Ada desenvolveu suas habilidades por números e até foi considerada como uma possível “investigadora matemática original, ou até de uma eminência de primeira-classe”, como aponta o artigo na Wikipedia em inglês sobre ela.

O algoritmo que a fez ser considerada a primeira programadora foi publicado nas notas de uma tradução para o inglês das memórias de um matemático italiano. O trabalho fazia parte de uma especulação de Charles Babbage chamada “Analytical Engine” (ou motor analítico, em tradução livre). As notas da tradutora, no fim, ficaram maiores do que o próprio artigo, já que Ada complementou o pensamento do italiano com explicações para o público inglês.

A afirmação do papel de Ada na história dos computadores é importante pela luta de igualdade entre gêneros no campo científico. De acordo com um estudo da Universidade de Yale (e publicado pelo New York Times), as faculdades de ciências, tecnologias e matemáticas privilegiam os homens no ensino, na hora de preencher uma vaga de emprego e, até, no valor do salário. Para se ter uma ideia, professores desses departamentos receberam dois currículos equivalentes, mas um com nome de “James”, masculino, e outro “Jennifer”, feminino. O candidato masculino teve muito mais chances de ser contratado do que a de sexo feminino – e até ofereceram um salário maior para ele. E, para piorar, as professoras também compartilham deste preconceito com seus pares.

Por tentar criar consciência sobre o assunto, várias instituições organizam prêmios e celebram conquistas feitas por mulheres. O Global Voices, por exemplo, todos os anos escolhe mulheres ao redor do mundo que são exemplos de atividades extraordinárias nas ciências. O Finding Ada é uma iniciativa que organiza o dia em homenagem à Ada Lovelace e articula organizações para promoverem a data.

E há diversos hackerspaces ao redor do mundo que estimulam a entrada de mulheres no mundo científico. O blog Make: fez uma entrevista com sete mulheres que fazem parte desses espaços para entender as diferenças e dificuldades de se estabelecer em um mundo predominantemente masculino.

Há outras iniciativas também, mas que, às vezes, em vez de incluírem, apenas aumentam as diferenças entre os gêneros, como, a meu ver, acontece com o Mothership HackerMoms, que está levantando recursos no Kickstarter (o Catarse internacional). Em vez de se criar um espaço conjunto, em que homens e mulheres possam conviver e criar juntos, enquanto trabalham e educam seus filhos, neste caso a criação dos filhos aparece apenas como papel da mulher e que deve ser separado de um ambiente para homens. Em vez de acabar com as barreiras, apenas as reafirmam e as aumentam.

Em todo o caso, a data vale para pensarmos mais sobre a questão e entendermos qual é o melhor meio de agir para evitar cair em sexismos que só mais atrapalham do que ajudam.

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Já comentei bastante sobre como a rede possibilita com que novas vozes surjam no meio da multidão (como o caso do Complexo do Alemão e a comparação com as ágoras políticas), mas até que ponto se pode assegurar que se atinja a audiência certa? Publicar algo em uma mídia social é garantia de chegar naqueles com quem se quer discutir?

Peguemos como exemplo o próprio Facebook. Por meio dele, se pode criar posts sobre assuntos diversos, que vão desde descrever literalmente o que se está passando em sua mente, até criar fanpages para divulgar conteúdos interessantes. Muitas vezes me vejo postando sobre temas que, acredito, deveriam ter mais atenção, como a situação caótica em metrópoles como São Paulo ou artigos e reportagens publicados em websites que vão contra a igualdade entre gêneros. A ideia é criar um ambiente para discussão e, claro, provar um ponto (que as proporções da cidade criam situações bizarras ou que o jornalismo está cada vez mais perdido na falta de limites). As respostas, porém, são em grande maioria em concordância com o que acredito. Quase nunca é alguém me condenando ou discordando. Daí fica a pergunta: até que ponto as pessoas para quem me dirijo pensam diferente de mim? Até que ponto consigo atingir diferentes públicos sobre os temas que discuto?

No caso do Facebook, além de só os amigos dos meus amigos poderem ver as minhas postagens (porque assim delimitei), grande parte das pessoas com quem me relaciono tem algo em comum comigo (trabalhamos nos mesmos lugares, nos conhecemos por meio de amigos ou estudamos no mesmo curso). Há uma linha em comum e, com isso, não há muito troca ou discussão, porque elas acreditam o mesmo que eu. Além disso, a própria rede social possui um filtro de postagens automático que mostra somente as notícias principais em vez de todas as mensagens das suas conexões. Como garantir, então, que seu conteúdo seja lido por aquelas pessoas que se quer tentar convencer?

O mesmo pensamento pode ser aplicado aos blogs. Se você possui um espaço em que publica suas ideias, como expandir e conquistar o público para que, assim, tenha uma audiência diversa e um ambiente de conversa? Se somos todos editores, será que não estamos nos isolando em apenas certos tipos de conteúdo? Será que não estamos criando bolhas de interesse que impedem que vejamos além daquilo que estabelecemos? Será que com a quantidade infinita de possibilidades, não estamos nos restringindo do novo, do diferente?

Não sei.

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E não é só o Brasil que tem um ônibus que sai hackeando por aí. Os nossos hermanos também possuem um – e que anda por parte da América Latina promovendo a cultura livre e a democratização de acesso ao conhecimento. Genial, né?

O LibreBus viajou em 2011 por alguns países da América Central (Costa Rica, Nicaragua, Honduras, El Salvador e Guatemala) para promover a cultura livre e construir relações entre os países vizinhos ou próximos. A primeira viagem rendeu um documentário em que xs 24 participantes da exploração demonstram as ideias iniciais para criar o veículo e traçar o primeiro trajeto.

(repararam que as idealizadoras do projeto são só mulheres? Sensacional, não?)

Agora, em 2012, elxs fizeram as malas novamente e pretendem passar 5 semanas dentro do micro-ônibus para viajar por quatro países (Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai) e percorrer cerca de 8.000 quilômetros. São pessoas de nacionalidades diferentes com habilidades complementares. Tudo para promover dentro do Cone-Sul o conhecimento como um bem coletivo.

No dia 27 de agosto, eles saíram de Valdivia, no Chile, para dar palestras e oficinas sobre software livre, liberdade de expressão, recursos educacionais abertos, biodiversidade, questões de gênero e tantos outros assuntos que a gente, aqui do Planeta Sustentável, gosta. As paradas oficiais e planejadas do ônibus podem ser acessadas aqui. A primeira parte da expedição já pode ser conferida no vídeo abaixo.

Segundo o Global Voices, a iniciativa para percorrer a região mais ao sul do continente surgiu de uma parceria entre a ONG chilena Derechos Digitales e a Fundação Via Libre, da Argentina. E por esse caráter multinacional é até bom nem pensar em nacionalidades para classificar o projeto como um todo. Quanto mais plural e sem fronteiras, melhor.

Pô, mas e o Brasil nessa história? O Brasil não foi até lá (o que é uma lástima), mas o LibreBus foi até o Centro Cultural São Paulo em setembro para conversar junto com o pessoal do Ônibus Hacker e promover diversas oficinas e intercâmbios entre as iniciativas.

Cultura livre cada vez mais on the road!

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E, mais uma vez, a falta de um marco civil para regularizar os direitos e deveres na internet causa situações bastante perigosas para os direitos individuais garantidos pela Constituição. Leis antigas provam não ser eficazes para administrar o que acontece na rede.

Nessa semana, o presidente do Google no Brasil, Fabio Coelho, teve sua prisão decretada pela Justiça por desobediência. Motivo: a empresa dona do YouTube decidiu não censurar um vídeo que ironizava um candidato à prefeitura de Campo Grande, MT. Além disso, o tribunal também decretou que o serviço de busca e a plataforma de vídeos fossem retirados do ar por 24 horas.

Para o decreto, a Justiça se baseou na Lei Eleitoral elaborada em 2009, que acredita que a internet é um veículo de massa como outro qualquer, assim como o rádio ou a televisão. O grande problema é que ela não é! Embora o responsável pela publicação do vídeo tenha retirado o conteúdo e deletado sua conta da plataforma, é impossível controlar o que é ou não publicado em páginas que possuem conteúdo colaborativo. Só pela situação de que são os usuários que controlam o que é publicado mostra o quão diferente das outras mídias a rede é.

A falta de um norteador para decisões como essa (que é o que o Marco Civil deveria fazer) é um ponto agravante de todo o processo. Não só a Justiça está tentando regular algo que desconhece, como a Constituição pode ser infringida a qualquer momento, criando uma cultura de censura extremamente delicada para a criação e liberdade de expressão.

Cada vez mais o mundo se vê em situações inéditas que demandam novas interpretações de valores antigos, como o caso das impressoras 3D ou a aprovação de leis que tipificam crimes. E dentro desta discussão, um aspecto importante é manter a neutralidade da rede.

Um livro um pouco já antigo (seis anos, hoje, já pode ser considerado antigo, né?), mas que discute este tema (e, infelizmente, em inglês) é “Who controls the Internet?”, escrito por Tim Wu e Jack Goldsmith. Os dois tentam mostrar que existem diversos gargalos que podem bloquear a liberdade de expressão na rede sem ao menos nos darmos conta. As possibilidades vão desde as operadoras (que controlam os serviços de conexão) até o cabeamento (que, dependendo, pode privilegiar umas regiões e privar outras). Para quem quiser entender um pouco mais, vale a leitura.

E, enquanto isso, vamos tentar pressionar para que o governo brasileiro desemperre o Marco Civil e o aprove o quanto antes!

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Intermediários. Estamos tão acostumados a ter profissionais no meio das nossas demandas que nem percebemos que, às vezes, eles não são tão necessários assim. Quantas vezes se usa o serviço de um despachante para tirar um documento simples, que poderia ter sido feito pessoalmente? Ou se contrata o serviço de um advogado apenas para ler um pequneo contrato que, aparentemente, nem era tão complicado assim?

É pensando nessa última questão que se criou o Docracy (nome que brinca com a ideia de que os documentos – e consequentemente os contratos – precisam ser mais democráticos), um jeito colaborativo de divulgar, editar e assinar contratos para tarefas simples do cotidiano. O objetivo é evitar pagar taxas exorbitantes para os advogados para fazer serviços pequenos, como, por exemplo, revisar um contrato padrão para sublocação de um apartamento ou um simples acordo de privacidade. Muitas vezes, são poucas as mudanças que acontecem de um contrato para o outro, e não se precisa necessariamente contratar o serviço de alguém para ter certeza que uma linha não foi modificada em todo o documento.

A plataforma possibilita que se suba um contrato e o libere em modo público para que qualquer um o edite e o comente. Assim, espera-se que em pouco tempo se tenha uma consultoria não necessariamente feita por advogados, mas também por pessoas que passaram pela mesma situação. Troca de experiências. E, além disso, se cria um banco de dados de contratos padrões que podem ser usados por qualquer um.

O projeto nasceu em 2011 durante um hackathon promovido pelo site TechCrunch. Hoje, graças ao financiamento de diversas instituições, a equipe se dedica em tempo integral à tarefa de criar uma comunidade focada em documentos legais. Não se quer, contudo, acabar com o serviço do advogado, mas sim criar um sistema para auxiliar em pequenas tarefas.

Colaboração por documentos legais!

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