# paisagemfabricada

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Um universo fechado em si mesmo, mas aberto para que apenas uma pessoa sinta. E é ela, lá do breu, que sabe que tudo não passa de pseudo-verdades. São fagulhas de surtos passados que projetam um pseudo-futuro que, claro, nunca aconteceu. E nessa de trabalhar com um passado e um não-futuro traz forças que latejam. E não param. E essas fagulhas parecem que ficam cada vez mais numerosas quando o passado está mais perto do presente. Surto-futuro.

E a pessoa, lá do breu, grita: "é o não-amor".

Surto.
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Daí pensei em ter aqueles diários, grossos, com páginas brancas para contar pensamentos e dias como esse. E, daí, eu vi que não teria graça, pois aquilo ficaria perdido em minha gaveta, sem ter outras páginas, brancas, completadas com outros dias como esse. Para quê, afinal? E a ideia de vazar para uma folha de papel é pensar alto como se estivesse falando com alguém, um espectador, por fim. Minha gaveta não sabe ler. A outra página, supostamente não tão mais branca pois antecede essa que eu estaria escrevendo, também não sabe. Então, para quê? Vou escrever aqui, por fim, pois daí sei que alguém, um dia, em um talvez, poderá ler o que eu pensei e pensará: nossa, nada a ver.

Lindo.

A questão é: o que é a música? A música é meio? É fim? É processo? É uma língua? O que é essa porra que me gusta tanto? Fico pensando em que papel ela pode ter em uma vida que, como disse, gosta de escrever e até cogitou ter aqueles diários, grossos, brancos. Um simples cantor me fez ir à Júpiter e, de lá, até agora, não consegui voltar. Estou preso em certas possibilidades e anseios que só Júpiter, com sua gravidade esmagadora, poderia provocar em um corpo instável e fabricado na Terra, em que o atm é 1.

Qual é a sua arte? Sério mesmo. Me diz: qual é a sua arte? Assim, todo mundo tem a sua arte. E não precisa ser artista e todas aqueles conceitos por trás. Só um simples: qual é a sua arte? Tenho uma amiga que diz que sua arte não é a arte em si, mas o processo artístico. É o ato de criação como produto, e não como processo. E o processo como definição de que, sim, é uma artista – sem nem ao menos ter uma obra pronta. Daí rola mais uma pergunta chata nesse mar de Júpiter que é: que porra é a definição de artista? E por que raios é preciso se chegar a alguma resolução em relação a isso?

O que mais me preocupa e me instiga agora é entender a experimentação como processo necessário para se entender o próprio processo. Tipo, preciso experimentar isso, aquilo, aquilo lá, para saber que, na próxima vez em que a vontade de escrever em diários não existentes chegar, eu vou precisar disso, aquilo outro e aquilo lá. E pronto.

Eu, por exemplo, em Júpiter, já entendi o processo do foguete que me trouxe aqui (em outras palavras, a música). Estando aqui, há um mundo tão grande inexplorado que fico sem saber para onde ir e que ação tomar. Percebi, contudo, que luz é algo que eu devo brincar mais, que é por ela – e por espelhos… quero muitos espelhos – que se dá para fingir ser uma coisa que não se é, ou então transformar uma simples fagulha em algo grandioso e refletido em diversos lugares. Outra coisa é a roupagem. Se vestir é um processo um tanto quanto agudo para uma vida obtusa de outro planeta, outra gravidade, outro atm. E, aí, precisa-se se jogar mais panos em algo que busca se aparecer. O paradoxo artístico, por fim.

Mas e você? O meu eu já sei. Convivo com ele. Mas e o seu? Qual é?

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E o que se faz com a ferrugem que surge assim do nada bem no meio do peito? É o que causa que as engrenagens do coração doam, sejam àsperas. As válvulas se arranham. A combustão deixa de ser completa e se vê o laranja-avermelhado de um ódio latente. Ciúme.

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Bochechas lisas trespassadas por grossos pelos pretos que suavizam
ainda mais os traços da face. Os óculos só o são para dar o charme de
serem retirados e esconderem o mundo de um ser destinado à graça do
diminutivo: lindinho. Os pequenos lábios foram devidamente treinados a
seguir a cadência de frases cantadas em uma região do país. E também
são a entrada mais fácil para um mundo ingenuamente árduo. “É o que
tem para hoje.” Dentro se vê a leveza de um ser sincero. Encantador. A
confusão de suas ações só é coerente com a ordem de um desejo além
corpo. “É aqui, ó, no coração.” E esquece tudo que quer por um bem
racional: a construção. A paixão, então, se vai como um passado a ser
lembrado de repente, quando bate a felicidade de se ser grato por ter
vivido grandes amores. E, mesmo velho, murcho, estampará o sorriso ao
sentir reecoar palavras que lhe foram lambidas em seus ouvidos. E
olhará para o gélido sentimento em seu corpo e lembrará: “é aqui, ó,
no coração”. E verá que, por fim, esqueceu de tudo por tempo demais.

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Bateu? Não, tá longe. Está entre rimas e versos. Composições além
palavras, mas imagens. Nunca será nada igual. Onde está a poesia? No
coração é que não está. Está entre os dentes. Tum-tum. Quem bate? É a
poesia. E ela jorra.

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Não sei o que é, mas me consome. E bate forte. Suga minhas energias e me deixa operando em estado baixo. baixo. É quando as possibilidades se esvaem, sabe? Quando o projetado era muito mais legal do que o real. Quando havia gravidez e não o vazio dentro do útero. E, daí, se fica baixo. E você tem que resolver problemas, situações cada vez mais incabíveis em seu mundo – que, por razões adversas, está baixo. baixo. E, daí, você fica pensando na vida e em como ela fica bonita marcada nos pulsos. E em como todas as situações e problemas incabíveis conspiram por estar em uma única presença, em uma única vida, em apenas dois pulsos.

baixo.

E você sente falta daquela única pessoa que te escuta e não te fala “compreendo” ou “puts, que foda” ou “nossa, não tenho nem o que falar”. Você quer aquela pessoa que realmente entende o problema e compartilha de seus questionamentos. Quem tem a mesma dúvida não tem nem como compreender. E você vê que essa pessoa realmente nunca existiu. E isso faz parte dos problemas e situações incabíveis que rondam aqueles dois pulsos, aquela única vida.

baixo.

E você olha para o seu corpo. Para as suas relações. Para as suas vontades e saudades. E se lembra que é tudo ilusão. Ninguém, no fim, existe em sua vida, em seus pulsos. É tudo passageiro, tudo louco, tudo com grandes verdades. Tudo alheio a você. baixo. E ninguém nunca saberá qual tonalidade de vermelho é o teu laranja. Ou que peso a sua risada forçada tem no meu interesse. E qual força sobra de um corpo que encara seus pulsos como uma vida.

baixo.

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Trouxe de lá para cá com a precisão cirúrgica de alguém com 1,80m só de braços. Acariciou a sua criação com seus dedos curtos e afiados, coçando as extremidades para tirar uma possível pulga nunca sentida. Suas tetas de 5 cm de cume de montanha olharam a criatura com pleno desdém. Os cabelos tão duros quanto conservadores, porém, apaixonaram-se ao serem mexidos de cá para lá enquanto ouviam os rangidos dos movimentos dos dedos. Não se pronunciava uma única palavra, pois elas não existiam. Tudo era muito preto no branco e branco no preto, e ao contrário.

O foco, contudo, era a criação, tão retraída e reprimida e sofrida. Ai, coitada. Até as pulgas nela são imaginadas. Doía só com os olhares de procura. Mas não achava, é claro. Era uma coisa.
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O círculo, para mim, sempre foi mais intrigante que o pêndulo. Embora o último represente até as batidas do relógio – tic-tac-tic-tac-tic-tac -, o primeiro demonstra a real complexidade com que o Tempo trabalha. Passa lentamente, abrindo graus obtusos até atingir o ponto máximo de contradição. Depois de muito ponderar, ele volta a graus agudos, esperando a reconciliação fatal do ponto onde saiu. E mais um dia morre. Mas outro começa. O círculo, como o seu formato demonstra, espera que tudo volte ao normal, ao inicial, ao status quo. Não é à toa que ele foi escolhido para representar o relógio. É ele que determina desde a hora que você levantará da cama, até o momento em que o alimento te satisfará por completo. O único problema é que humano não é círculo. Ele gosta de quebrar barreiras do pré-estabelecido e buscar meios de subverter o status que lhe foi implantado. Isso bem na teoria, pois volta-e-meia (não à toa a escolha da expressão), ele cai no mesmíssimo lugar, embora em um contexto diferente. Daqui a quatro meses, quebrarei um status que me estabeleceram. Vou responder a um chamado que tive desde quando me lembro por gente. Agora, só não sei para que direção ir. Irei em busca da contradição ou buscarei a morte de mais um dia para ver o mais novo chegar? É a virada.

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Corta. Pare. Desça. Rasgue. Não vá. Fique. Coma. Beba. Beba. Beba. Sorria. Pare. Não quero. Caia. Ande. Saia. Rode. Rode. Olhe! Grite. Alto. Mais alto! Beba. Olhe para mim. Para mim. Não desvie. Diga. Diga! Mais uma vez. Sabia. Não. Não quero. Diga de novo. Diga! Venha. Beba. Mais. Olhe! Lá no alto. Viu? Vem cá. Olhe. Não desvie. Não ria. Diga sério. Diga. Não acredito. De novo. Rá! Cócegas. Bem aqui. No estômago. Não ria. Não quero. Saia. Corra. São eles. Vamos. Corra. Pare. Beba. Mais. Corra. Olhe! Lá no alto. Ah! Não me canso. Venha. Vamos. Por ali. Vamos. Pare. Aqui. Apague. Isso. Olhe. Para mim. Diga. Diga mais uma vez. Me dói. Dói. Muito. Sempre. Olhe para mim. Diga. Dói. Parece que… corta.

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Ei, você. Psiu. É, você aí. Ei. Não você. É o que está ao seu lado. Isso aí. Você! Venha cá. Venha! Pode vir. Tenha medo não. Eu só quero te mostrar uma coisa. Pode vir sem medo. Vem cá! Isso. É rapidinho. Vem cá, meu amigo. Isso. Ó, está vendo isso daqui? Viu? Está quebrado. Racharam no meio. Daí você deve estar pensando que eu preciso consertar, né? Preciso não. Nem quero. Olha como está bonito quebrado. Essa rachadura não é linda? Ela diz tanta coisa. Eu tenho orgulho dela, sabe? Por isso que eu queria te mostrar. Lindo, né? Agora, pode ir. Só queria te mostrar isso mesmo. Pode ir. Só me prometa que você vai contar a todo mundo o que viu. Isso não pode ser segredo. Tem que ser espalhado. Vai lá. E conte para todos os seus amigos. Conte que você viu a rachadura mais linda da sua vida. É isso aí.

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