# paisagemfabricada

Eu fui convidado pelo artista, curador e diretor artístico do Red Bull Station, Fernando Velázquez, para dar uma palestra sobre a minha experiência com coletivos usando como estudo de caso o BaixoCentro.

Junto a mim, estavam Kiko Dinucci, músico do Metá Metá e tantos outros projetos; e Rodrigo Araújo, do coletivo Bijari.

A palestra, em breve, estará em vídeo no site.

Abaixo, segue a minha fala que estruturei em um artigo.

NÓS DA CRIAÇÃO COLETIVA
Por Thiago Carrapatoso

Quando recebi o convite para fazer parte desta mesa, sugeri convidar outros colaboradores do BaixoCentro para fazer parte da conversa, de forma que não ficasse apenas um representante do movimento dando sua opinião, mas sim que se abrisse para que outros pudessem dar suas outras perspectivas sobre a criação e funcionamento do coletivo. Me disseram, porém, que era um convite pessoal, em que, claro, considerava que eu faço/fazia parte do BaixoCentro, mas também se interessava pelas outras iniciativas e estudos que fiz sobre a questão da colaboração em meios digitais contemporâneos. Então, em vez de falar sobre o BaixoCentro propriamente, vou fazer uma breve introdução e usá-lo como estudo de caso para partir para outros questionamentos que, acredito, são interessantes para esta mesa.

O BaixoCentro é um movimento que começou sua articulação em 2011 como resposta às políticas públicas repressoras vigentes (o então prefeito era o Gilberto Kassab) e à especulação imobiliária latente na região central de São Paulo, tendo o projeto NovaLuz como representante principal, o qual estabelecia a demolição de 33% da região próxima à Sta. Ifigênia. Neste processo, se percebeu a falta da participação da sociedade civil sobre as questões urbanas e tão próximas de qualquer cidadão. Como dizíamos na época, as ruas estavam em disputa. E a sociedade não estava nem sendo considerada na discussão. Para engajar as pessoas nestas questões, então, decidimos organizar um festival de rua, sem curadoria e aberto para qualquer um com uma proposta de atividade, sem pedir permissão para a administração pública e sem receber patrocínio de iniciativa privada. Um festival feito por pessoas e para pessoas. Com tudo isso, arrecadamos quase R$ 90 mil por meio de financiamento coletivo, cuidamos de mais de 700 atividades nesses quatro anos, e incentivamos com que outros coletivos e pessoas usassem nossos equipamentos para ocupar as ruas com programação cultural gratuita. Como não tínhamos a Polícia Militar ao nosso lado (ainda bem!), não temos a fictícia contagem de público. Mas, hoje, nossas redes sociais contam com mais de 15 mil e 500 curtidas na nossa página no Facebook, quase 8 mil e 500 pessoas que fazem parte do nosso grupo de discussão também nesta rede social, e um pouco mais de 400 que recebem nossas mensagens em nosso grupo de e-mail. Escrevemos artigos para revistas acadêmicas como a revista V!RUS, da USP, e para publicações de galerias de arte, como a publicada pelo Ateliê 397; participamos de exposições internacionais sobre ativismo, como o Global Activism, da ZKM Media Museum, na Alemanha; e conseguimos com que várias pessoas não gostassem da gente (ou nos parodiassem), como o histórico Cordão da Mentira, que passou a adotar o slogan “As ruas são para lutar” em contraposição ao nosso “As ruas são para dançar”; o coletivo Zagaia, que publicou diversos textos (ou como eles chamam, artigos) sobre quão vazio era o movimento; e de diversos motoristas que tiveram seus carros sujos de tinta por causa da nossa primeira intervenção em um cruzamento na Avenida São João, em que jogamos cerca de 400 litros de tintas de diferentes cores no meio da rua para que os carros pintassem o asfalto cinza dessa enorme metrópole que é São Paulo.

Quando estávamos nos estruturando para criar o grupo, e muito por estarmos imersos na Casa de Cultura Digital, pensamos em aplicar a metodologia das comunidades de software livre dentro de um movimento que prega o direito à cidade. A ideia era que fosse um movimento horizontal, auto-gestionado, sem hierarquias e totalmente independente. Sem tarefas definidas, um dia se podia estar batalhando na comunicação e articulação em nossas redes para virar nossos financiamentos coletivos, e no outro estar no meio da rua batendo nas janelas das casas que beiram o Minhocão para pedir uma tomada amiga. Cada um pega a tarefa que quer e que mais se identifica, sem precisar se pensar em ter uma educação formal ou experiência com determinada tarefa. Desta forma, também, não se fincaria o movimento a determinadas pessoas e possibilitaria com que ele fosse mais flexível, com cada um ocupando as lacunas que faltavam de forma orgânica.

Isso tudo na teoria.

E foi na teoria que Yochai Benkler junto com Helen Nissenbaum fizeram uma análise, publicada no The Journal of Political Philosophy em 2006, sobre as comunidades de software livre e como elas trabalham a virtuosidade do cidadão. Quando se se dedica a um bem comum (que pode ser tanto um software de computador quanto a ocupação dos espaços públicos de uma cidade), de acordo com eles, é que se desenvolve uma moral e ética colaborativa que, depois, é revertida para toda a sociedade. Ou seja, os dias que você passa em frente ao seu computador isolado e conversando e trocando códigos com uma comunidade online serão muito bem revertidos para a sociedade em geral, já que você será uma melhor pessoa moral e eticamente falando. Um virtuoso, por fim. E por virtude, eles definem como “as situações que envolvem as faculdades de escolha, julgamento, desejo, emocionais e de ação”. Para que uma comunidade possa ser enquadrada como compartilhada entre pares (ou seja, um coletivo sem hierarquia definida), para os autores, ela precisa ter três estruturas: 1) as tarefas precisam ser modulares de forma a ser divididas entre os voluntários; 2) possuir variações de engajamento, sendo umas atividades mais complexas e outras mais simples, como meio para atrair o maior número de perfis para as tarefas – e consequentemente agilizar o processo de produção, uma vez que as tarefas são pulverizadas; e 3) ter um baixo custo na execução de cada módulo para a construção de um produto final. Repetindo: 1) módulos, 2) variações de complexidade das tarefas e 3) baixo custo. Como se vê e como dito anteriormente, a organização do BaixoCentro se enquadra nas três estruturas. Mas quais seriam as virtudes trabalhadas dentro de um coletivo? Benkler e Nissenbaum as dividiram em quatro diferentes clusters, que são: 1) autonomia, independência, liberdade; 2) criatividade, produtividade e processos industriais (aqui, no sentido genérico do termo); 3) benevolência, caridade, generosidade e altruísmo; e 4) sociabilidade, camaradismo, amizade, cooperação e virtude cívica. Para eles, não é necessário possuir essas qualidades antes de se engajar em um determinado coletivo. Pelo contrário. Será dentro deles que a virtude será trabalhada e desenvolvida. Como eles falam, “nós sugerimos que a emergência da produção por meio de pares ofereça a oportunidade para que mais pessoas se engajem em práticas que permitem que se mostre e experimente comportamentos virtuosos.” Ou seja, se você for um reacionário, troglodita, misógino e individualista, trabalhar em coletivo vai te curar de todos os seus problemas.

Indo um pouco mais além, a pesquisadora Claire Bishop, em suas análises sobre arte participativa, acredita que não é somente dentro do núcleo de organização que se trabalha a virtuosidade cívica, mas também quando se está interagindo com a intervenção criada. De acordo com ela, “para muitos artistas e curadores da esquerda, a afirmação de Guy Debord sobre a alienação e os efeitos divisórios do capitalismo em seu A Sociedade do Espetáculo atinge no coração do porque participação é importante para o projeto [arte participativa]: ele re-humaniza a sociedade atávica e fragmentada pela instrumentalização repressiva da produção capitalista.” E ela vai mais fundo ainda: “arte participativa, em seu sentido mais restrito, acaba com a ideia de espectador e sugere um novo entendimento de arte sem audiência, uma arte em que todo mundo é produtor. Ao mesmo tempo, a existência de uma audiência é impossível de se eliminar, uma vez que é impossível para que todo mundo participe em todos os projetos.”

Voltando ao BaixoCentro, para justamente quebrar esta barreira entre quem é produtor, quem é artista e quem é público (porque nós vemos todo mundo como sociedade civil e é isso que é importante para a gente), nós criamos a figura do “cuidador”. Em vez de pensar em uma curadoria formal em que atividades são escolhidas dentro de um escopo definido por alguém (ou alguéns), nós decidimos aceitar toda e qualquer atividade que a gente recebeu pelas chamadas públicas. E em vez de produzi-las no sentido mais prático do termo, designamos alguém para cuidar da atividade junto ao proponente. Assim, nós não éramos responsáveis inteiramente pela produção da intervenção, e os artistas – ou proponentes – não deixavam de participar na construção real de sua ideia ou projeto. “Somos todos produtores”, como dizemos.

Quando vi a descrição da mesa de hoje, não pude deixar de reparar no título: “Nós da criação coletiva”. “Nós da criação coletiva”. Quando falado, sem pensar na gramática da construção, o “nós” nos remete a uma primeira pessoa do plural. Algo que não só me contempla, mas como também contempla tantos outros. Mas quem seria esse “nós”, esses outros? Quais pessoas estariam dentro da classificação de atores ou agentes de uma construção coletiva? Seriam os organizadores dos coletivos, um núcleo duro, como a gente do BaixoCentro chama? Ou seriam todos os proponentes, no caso do BaixoCentro, que se propuseram a dedicar tempo e energia para fazer atividades nas ruas? Seriam os diferentes públicos que também estão inseridos dentro desta construção, já que são eles quem consome e é modificado por todo este processo?

A meu ver, antes mesmo de se pensar em respostas a essas perguntas, o mais interessante desta primeira pessoa do plural, desse “nós”, é a ideia de haver um Outro com quem nos identificamos. Uma identidade que não necessariamente é unidade (somos todos iguais), mas que relaciona as diferentes práticas a um fim que, teoricamente, possui uma similaridade de processo. Então, a pergunta vira outra: qual é esse processo que nos identifica e que nos relaciona? O que é essa “criação coletiva” que classifica a nossa forma de atuação? E o que diferencia essa “criação coletiva” de uma não-coletiva? Seria a falta de um Outro no mesmo processo? Mas qual criação se pode falar que não depende de um Outro para acontecer e ser realizada?

Agora, se analisarmos o título pelo ponto de vista gramatical, da ordem da língua portuguesa, o “nós” sem ser seguido por uma vírgula para definição de um aposto pode ser entendido (não que seja o caso) como laços, como aquelas amarras feitas em cordas para segurar determinado objeto. E caindo para um linguajar popular, os “nós” se tornam os problemas, as complicações de determinado assunto. Por exemplo, “aquele trampo lá deu um nó, mas um nó, que só a Sta Desatadora de Nós para resolver”. Daí, então, por esta perspectiva, quais seriam os “nós”, os problemas, de uma criação coletiva? Será que são só virtudes que são geradas quando nos relacionamos tão próximos do Outro?

O que Benkler, Nissenbaum e Bishop esquecem é que comunidades (ou movimentos ou coletivos), sejam eles online ou físicas, não são espaços neutros em que apenas qualidades (ou virtudes) são trabalhadas. Nelas, também se vêem muitos vícios em suas dinâmicas, como alguns casos de quando “forks” (ou seja, outras comunidades que trabalham com o mesmo código base, mas querem ir por um outro caminho) são formados e quebram a harmonia de todo um grupo. A meritocracia, que é base também para as dinâmicas das comunidades de software livre, também surge como um grande problema, uma vez que um integrante pode se diferenciar dos demais e, dependendo do que for, pode gerar mais atritos e muito menos virtudes.

Durante o processo do BaixoCentro, tivemos diferentes aproximações com outros coletivos que atuam (ou começaram a atuar) nas ruas de São Paulo. Lembro que o primeiro festival foi organizado em 2012, ano de eleição para a prefeitura da cidade. Logo depois de organizar as mais de 120 atividades em 10 dias no fim de março daquele ano, a campanha do agora prefeito Fernando Haddad nos contatou para que explicássemos o movimento ao então candidato. Como somos um grupo independente de órgãos públicos ou privados, não participamos do encontro, já que a gente teria, então, que fazer o mesmo com todos os outros candidatos, o que não convinha e nem era de nosso interesse. Tempos mais tarde, porém, surge a gigantesca campanha política “#Amor Sim, Russomano Não”, em que o princípio era ocupar um espaço público (no caso a Praça Roosevelt, então denominada Praça Rosa, para amenizar o vermelho-PT) com atividades culturais durante um dia inteiro como manifestação contra um candidato. A iniciativa deu tão certo que um filho surgiu, o grupo “Existe Amor Em SP” que, como o BaixoCentro, organizou diversas atividades em espaços públicos, mas dessa vez espalhados pela cidade e não focados em uma determinada localidade. O “Existe Amor”, como é bem sabido entre os grupos e coletivos que atuam nas ruas de São Paulo, foi a primeira entrada do Fora do Eixo no eixo Rio-São Paulo. E, neste processo, vários integrantes do próprio BaixoCentro participaram do Existe Amor, organizando atividades e discutindo sobre o uso cultural dos espaços públicos. Cogitou-se, então, um apoio formal do BaixoCentro ao Existe Amor, como se os dois movimentos fosse apenas um só. O problema é que parte das pessoas que integram o BaixoCentro era totalmente contra o Fora do Eixo, suas premissas e, muito mais importante, a forma como eles se organizavam e tratavam seus integrantes.

Olha o nó!

Nas comunidades de software livre, o “fork” surge como uma possível solução. Ou seja, se um determinado grupo do coletivo quer, por exemplo, quer uma derivação daquele código se torne proprietário e não mais aberto e livre, o “fork” é criado. Dessa forma, o grupo se desmembra e os dois objetivos podem ser atingidos. Mas o processo do “fork”, em algumas vezes, não é tão virtuoso e simples quanto se parece. São necessárias muitas discussões e tentativas de entendimento do Outro que vão além de qualquer preparo anterior. E como já disse Benkler e Nissenbaum, não é preciso ter as virtudes antes de participar destes grupos.

No fim, no caso do BaixoCentro, depois de discussões homéricas, continuamos com o BaixoCentro independente e sem ligações formais com o Fora do Eixo (digo “ligações formais” porque durante o segundo festival – se por interesse, pirraça ou apenas altruísmo, não sei – eles montaram o QG de documentação no mesmo local que o nosso, lá na Casa de Cultura Digital). Mas o que me interessa deste caso é o embate com o Outro para se tentar chegar a uma solução.

Existe uma passagem em um livro de Chantal Mouffe em que ela explica os conceitos da “democracia radical” que eu sempre uso em textos sobre o BaixoCentro. Para Mouffe, o espaço público é o lugar de antagonismos que geram uma democracia na raiz, radical. É o conflito entre os diferentes que torna possível a pluralidade da sociedade e que ideias opostas coexistem até se chocarem em uma discussão necessariamente política. Ela diz: “quando aceitamos que toda identidade é relacional e que a condição de existência de qualquer identidade é a afirmação de uma diferença, ou seja, a determinação de um ‘outro’ que irá atuar com o papel de um ‘excluído constituído’, é possível entender como o antagonismo emerge. No âmbito das identificações coletivas, nas quais o que está em questão é a criação de um ‘nós’ pela delimitação de um ‘eles’, a possibilidade sempre existe de que a relação nós/eles se torne uma relação do tipo amigo/inimigo. (…) Isto pode acontecer quando o outro, que era considerado até aquele momento apenas como um modo de diferença, começa a ser perseguido como negador de nossa identidade, como se questionasse a nossa própria existência. A partir desse momento, qualquer tipo de relação nós/eles, seja religiosa, étnica, de nacionalidade, econômica ou outras quaisquer, se torna palco para um antagonismo político.”

E é essa relação entre “nós/eles” que, acredito, está imersa dentro da concepção de uma “criação coletiva”. O “nós”, se voltarmos a considerar como pronome da primeira pessoa do plural, é uma afirmação de que existe um outro, um “eles”, um diferente ali que faz com que nos delimitamos como um grupo, um coletivo. Faz com que haja uma identificação dentro de nosso processo que, se não contradiz, é antagônica ao que é então praticada. Mas, ao mesmo tempo, dentro desse mesmo pronome, há um outro “nó”, que é a relação entre as pessoas que se identificam como iguais mesmo sendo completamente diferentes. Ou seja, os integrantes desse “nós”. É a relação intra-coletivo que, também, não deixa de ser um antagonismo político.

Com tudo isso, e já encerrando, o que acho que seria interessante para discutir nesta mesa é a própria caracterização dos processos dentro de uma “criação coletiva”. Se existe realmente um “nós”, pronome, quem faz parte dele? Pegando o caso do BaixoCentro, seriam os organizadores, os proponentes, ou o público? Mas se o público faz parte integrante da própria intervenção, como definir a linha que separa entre o “nós” e “eles”? Até onde podemos falar que uma criação é realmente coletiva ou individual?

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No dia 4 de março, o publicitário Roberto Duailibi publicou um artigo em sua coluna contra os grafites em São Paulo. Intitulado “Queremos ser a capital do grafite?“, o artigo demonstra uma ignorância assustadora sobre esta vertente artística e sobre os próprios processos urbanísticos da cidade.

Ao ler o texto, fiquei extremamente indignado com a abordagem e, no ímpeto do sentimento, escrevi o texto abaixo, que mandei para todos os emails que encontrei do Estadão mas que claro não foi publicado (até porque já era bem tarde da noite).

Como registro, publico aqui a indignação.

Caro Sr. Duailibi,

sua opinião sobre os grafites na cidade de São Paulo me fez pensar em temas muito mais amplos. A questão não está mais na apropriação da arte por vozes oprimidas pelas forças hegemônicas, mas sim na construção de pensamento da educação privada que tanto se expande em um país como o Brasil. Ao ler/ver/escutar sobre o sucateamento da educação pública (principalmente em nosso querido Tucanistão e em um ano de eleição no esquema Fla x Flu), penso que, às vezes, o problema não é a educação pública, mas sim a educação como um todo estar mal estruturada. Ler seus pensamentos sobre uma vertente artística legítima me faz pensar que erramos também na educação privada.

O grafite, por definição, é a representação de uma voz oprimida dentro das questões tanto do mercado da arte como do próprio urbanismo. Políticas urbanas como as “broken windows” (ou janelas quebradas), em que a repressão policial é usada para barrar qualquer possibilidade de uso orgânico do espaço, demonstram a força e o poder de articulação de uma expressão que usa as ruas e os muros como telas e como meios de comunicação com os “comuns”. O grafite é a emergência de uma demanda, de um pedido, de uma situação ignorada e reprimida. Só esse argumento simples e extremamente visível em qualquer periferia (não à toa que a Polícia Militar é o meio para o genocídio de jovens negros e pobres) demonstra que a expressão artística do grafite não é nada “fascista”. Não nasce e não se propaga por meio de discursos e conceitos restritivos. Muito pelo contrário. O grafite surge como uma expressão latente de uma camada da população diretamente oprimida por causa do discurso hegemônico, privado, que entende que o gosto da arte está ligado às elites e não às periferias.

A administração municipal fez muito bem ao estruturar uma grande avenida, com circulação diária de pessoas extremamente alta, como tela para estas vozes até então escondidas em guetos e em articulações alternativas. Passar todos os dias pela 23 de maio e ver diferentes traços e prospecções artísticas é de uma progressão imensurável comparada às administrações anteriores que tivemos nesta grande metrópole.

São Paulo, para a sua informação, não é só reconhecida por estes eventos privados que você tanto se orgulha (como “feiras, exposições, convenções, reuniões importantes”). Não. São Paulo é reconhecida, inclusive no mundo da arte internacional (eu entendi que você não entende sobre arte. Tudo bem, mas vamos pensar sobre o tema antes de escrever para um grande jornal), por sua vocação em arte de rua. Se você conheceu Os Gêmeos em sua fase de expor em galerias e fazer trabalhos comissionados, saiba que eles começaram como qualquer outro grafiteiro: ocupando os muros que estavam ali e separavam a vida deles da sua vida de elite paulistana. O grafite tem sim “relevância mundial”, muito mais do que você imagina pelo seu desconhecimento do que é arte e quais discussões existem dentre deste campo.

Sinto-me extremamente frustrado ao ler o seu artigo em um grande jornal principalmente por saber que o Sr. não é nenhum ignorante em termos de formação. E se não é, por que decide ser tão ignorante publicamente? Acredito que nós devemos não só discutir os problemas da formação pública, mas também incluir os problemas da formação privada porque opiniões sem nenhum embasamento ou teor crítico como estas só trazem a desinformação para uma cidade para lá de caótica como São Paulo.

E viva o grafite!

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Finalmente, o ano chega perto de seu fim. Como é comum nesta época, faço aqui uma retrospectiva com um apanhado das ações que aconteceram sobre o Minhocão em 2014. Uma retrospectiva bastante subjetiva que narra os principais trâmites que presenciei. Desde o meu post sobre os 5 motivos para demolir o viaduto e a criação do grupo no Facebook SP Sem Minhocão!, várias ações foram feitas para aumentar a participação popular em toda esta discussão. O grupo na rede social trouxe vários argumentos e perspectivas, além de articular pessoas interessadas no assunto que querem ser ativas em todo este processo.

Para entender: antes mesmo de ser aprovado o Plano Diretor Estratégico (PDE), que determina a paralisação do tráfego no Minhocão, foi criado um projeto de lei (PL 10/2014) que, além de montar um cronograma sobre como a via será fechada, também aprova um parque suspenso em suas estruturas. Repito: antes mesmo do PDE ser aprovado, o PL já tinha sido criado, sem consultas ou participação popular. É importante ressaltar que há uma grande diferença entre participar das discussões do PDE e uma discussão sobre um PL. O Plano Diretor são diretrizes gerais para a cidade, que engloba diversos assuntos. Um projeto de lei é bem específico e pode ser encaminhado para o executivo a qualquer momento a partir da votação. As discussões sobre o PDE não são as mesmas das para um PL. E, para piorar, o PL é assinado por nada menos do que 7 partidos políticos, o que o dá grande força dentro da Câmara Municipal. Isso tudo sem discussões, sem debate, sem projeto apresentado.

O PL já passou pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o qual deu um parecer legal, mesmo tendo o pedido de inconstitucionalidade feito pelo vereador Eduardo Tuma (PSDB). Agora, o PL está na Comissão de Política Urbana, Metropolitana e Meio Ambiente (URB), onde deverá ser discutido com mais detalhes. Mas é importante salientar que a partir que um PL é aprovado pela CCJ ele pode ser votado a qualquer momento, sem necessariamente passar pelas outras comissões.

Vamos à retrospectiva:

– Organizamos um fórum, idealizado por Elisa Moreau e com participação de tantas outras pessoas, no dia 3 de dezembro dentro da Câmara dos vereadores para aproximar a sociedade civil do debate e qualificar os argumentos. Para tanto, convidamos: Athos Comolatti, da Associação Parque do Minhocão; Yara Góes, do movimento Desmonte o Minhocão; o arquiteto José Armênio Brito Cruz, do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB); o arquiteto Lúcio Gomes de Machado; a urbanista Anne Marie Sumner; o fotógrafo Felipe Morozini; Fernando Serapião; Alexandre Moreira; Fabiana Cunha; Paula Andrade; Valter Caldana; Fernando Melo de Franco, Secretário Municipal de Desenvolvimento Urbano; e Tadeu Leite, diretor adjunto de Planejamento, Projeto e Educação de Trânsito da CET. Participaram também os vereadores Ricardo Young (PPS), José Police Neto (PSD), Toninho Vespoli (PSOL) e Nabil Bonduki (PT). O promotor de Justiça do Meio Ambiente Marcos Lúcio Barreto também compareceu e apresentou sua perspectiva sobre o assunto;

– O evento não foi gravado em vídeo na íntegra por causa de uma confusão com a mudança de sala na última hora. O perfil no Facebook do vereador Ricardo Young publicou uma explicação sobre a falha. Mas Cecília Oka fez o grande favor de gravá-lo em áudio;

– O Portal Aprendiz fez uma reportagem sobre o evento, assim como a Web Rádio Câmara SP e a TV Câmara;

– Para que os vereadores participassem do Fórum, eu e Elisa passamos três semanas visitando os gabinetes e conversando com os vereadores e assessores para que entendessem que o nosso foco era a participação popular sobre o assunto. Os gabinetes que abriram suas portas para a gente foram: Ricardo Young (PPS), Nabil Bonduki (PT), Marco Aurélio Cunha (PSD), Jair Tatto (PT), Laércio Benko (PHS), Natalini (PV), Netinho de Paula (PC do B), Roberto Tripoli (PV), Donato (PT), José Police Neto (PSD), Toninho Vespoli (PSOL), Claudinho (PSDB) e Mário Covas Neto (PSDB);

– É importante explicar que para fazer qualquer atividade dentro da Câmara é preciso que um gabinete abra suas portas e realize a burocracia interna. Para este evento, quem abriu o seu gabinete foi o vereador Ricardo Young. Os seus assessores Rangel Mohedano e Sérgio Borges Arruda foram os responsáveis por articular toda a parte interna e convidar oficialmente os participantes da mesa;

– Eles publicaram um relatório, com as infos que conseguiram juntar, sobre o que foi discutido neste primeiro encontro;

– A ideia do fórum é que seja uma série. Este foi o primeiro encontro para qualificar o debate, ou seja, trazer informações e dados sobre ambas as partes (parque e desmonte) para que a população e os vereadores entendam os argumentos em jogo. O segundo encontro está previsto para fim de fevereiro ou começo de março, sendo o terceiro planejado para acontecer em abril. Para o próximo, queremos que outro gabinete da Câmara nos ajude na burocracia interna, de forma a manter a discussão fora de um só gabinete e envolver mais vereadores na conversa;

– A Elisa deu uma entrevista bem interessante para a Universidade Metodista;

– Eu fui convidado pelo Tendências/Debates, da Folha de S. Paulo, para escrever um artigo defendendo o desmonte. Do outro lado, o vereador Coronel Telhada defendeu a construção de um parque;

– Fiz pedidos de acesso à informação para a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e à Secretaria Municipal de Transportes sobre as alternativas e estudos sobre desvio de tráfego para garantir a paralisação do Minhocão. Eis as respostas:
Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano:
Prezado Thiago,

Os estudos de tráfego são de responsabilidade da CET, a quem devem ser encaminhadas as questões. Com relação ao Minhocão, este está dentro do perímetro do Arco Tietê, que é objeto de procedimento de chamamento público nº 001/2013 SMDU, ao qual a iniciativa privada e demais entidades foram convidadas para participar da discussão de propostas urbanísticas para este perímetro do Arco Tietê. No entanto, a revisão do Plano Diretor Estratégico (PDE) trouxe a obrigação de uma ampla discussão sobre os destinos do elevado, prevendo a elaboração de lei específica que deverá determinar a gradual restrição ao transporte individual motorizado no Elevado Costa e Silva, definindo prazos até a sua completa desativação como via de tráfego, sua demolição ou transformação parcial ou integral em parque.

A Câmara Municipal tem feito audiências públicas sobre isto e as hipóteses são as mais variadas: demolir, transformar em parque, trocar o tráfego por transporte público (BRT ou VLT). Dessa forma, os projetos para o Minhocão devem comprovar sua eficácia como solução urbanística, sua viabilidade econômica e ser objeto da construção de um consenso entre todos os agentes envolvidos (moradores, usuários da região, investidores e empreendedores privados) e as diversas esferas do governo. A partir dos possíveis consensos desta discussão pública, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (SMDU) irá examinar as alternativas para propor soluções.

A Operação Urbana Lapa-Brás também está compreendida no Arco Tietê, cujo material está disponível na plataforma Gestão Urbana através do link: http://gestaourbana.prefeitura.sp.gov.br/arco-tiete/

Referente à Operação Urbana Água Branca, todo o material referente à operação está disponível no site da SPUrbanismo e pode ser acessado no link: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/desenvolvimento_urbano/sp_urbanismo/operacoes_urbanas/agua_branca/index.php?p=19589

Secretaria Municipal de Transportes:
Prezado Munícipe, Agradecemos o seu contato via canal e-SIC e comunicamos que sua solicitação foi indeferida, uma vez que não existem estudos até o momento. Por oportuno, esclarecemos que a Lei nº 16.050/2014 (Aprova a Política de Desenvolvimento Urbano e o Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo e Revoga e Lei n. 13430/2002) estabeleceu que “lei específica deverá ser elaborada determinando a gradual restrição ao transporte individual motorizado no Elevado Costa e Silva, definindo prazos até sua completa desativação como via de tráfego, sua demolição ou transformação, parcial ou integral, em parque” (Art. 375, Parágrafo único). Em não havendo sido aprovada a referida lei, não temos o que informar a respeito da solicitação a nós dirigida. Quanto às informações sobre as operações urbanas V. Sra. poderá encontrá-las nos sites da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/desenvolvimento_urbano/noticias/index.php?p=19525) e SP-Urbanismo (http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/desenvolvimento_urbano/sp_urbanismo/ ).“;

– Protocolei junto à Câmara outros 8 pedidos de acesso à informação para saber as agendas dos 8 vereadores que assinam o projeto de lei que aprova o parque. A ideia é descobrir quem foram as pessoas, entidades e movimentos com quem eles se reuniram para discutir sobre o Minhocão durante o seus atuais mandatos (2012-2016). Até agora, só obtive a resposta do vereador José Police Neto, para quem já pedi recurso por não ter respondido à pergunta. Segue sua resposta:
Boa tarde,
Recebi o senhor Thiago Carrapatoso em reunião no meu gabinete no dia 18 de novembro às 9:30 hs. Oportunidade em que pude apresentar-lhe, bem como a senhora Elisa Moreau, que o acompanhava, atividades, ações, reuniões e temas desenvolvidos pelo atual mandato em relação ao Minhocão. Tive, ainda, a oportunidade, em nossas horas de diálogo, de lhe apresentar a base argumentativa que me levou a oferecer emenda ao Novo Plano Diretor visando a ‘Desativação do Minhocão’. Emenda essa que abriu caminho para a construção do texto sancionado pelo chefe do Executivo. Mantenho meu mandato à total disposição do interessado.

Atenciosamente,

José Police Neto“;

– Conversei com o pessoal do Artigo 19, organização que tem o foco na lei de acesso à informação, para me ajudar a destravar as informações que envolvem o assunto junto ao poder público;

– Nós, do SP Sem Minhocão!, estamos desenvolvendo um dossiê para protocolar nos gabinetes em janeiro. Desta forma, os vereadores terão um documento para pesquisar, caso queiram se inteirar sobre o assunto antes de votar qualquer projeto;

– Pedi uma conversa com o prefeito Fernando Haddad para explicar os argumentos contra o PL e a falta de transparência em todo o processo. Ainda esperando resposta.

Como se vê, o ano rendeu, mas ainda falta muito para ser feito. Embora tenhamos insistido veemente para que os vereadores mudem o PL que está em tramitação hoje (até fizemos um substitutivo para ele), eles simplesmente preferem falar que a população será ouvida, sem estabelecer nenhuma garantia para isso. A grande questão é que é impossível se organizar um debate imparcial tendo um projeto de lei, que pode ser votado a qualquer momento, já aprovando uma das partes. Se o poder público quer realmente aumentar a participação da sociedade civil em suas decisões, é importante criar mecanismos e ambientes favoráveis a isso. Qualquer discussão sobre o Minhocão hoje é extremamente tendenciosa, justamente por causa do PL.

Mudar isso é o plano para 2015.

{{Post originalmente publicado aqui}}

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As discussões na grande mídia sobre o Minhocão têm ganhado cada vez mais espaço e destaque. Diversos veículos de comunicação já fizeram suas reportagens, com seus vieses sobre o assunto, entrevistando moradores e ativistas sobre a causa. Desta vez, o jornal a Folha de S. Paulo, em sua edição de sábado do dia 13/12/2014, abriu o espaço Tendências/Debates de sua versão imprensa sobre o assunto. A pergunta foi “Minhocão deve ser desativado e demolido?”.

Para responder a parte do Não e defender o parque, chamaram o vereador que possui sua base eleitoral no Centro, o Coronel Telhada. O texto começa com a uma frase que nenhum paulistano falaria: “Um Minhocão só é pouco, deveria ter cinco”. Depois, ele disserta sobre os problemas viários da cidade e porque um parque é importante. O texto na íntegra pode ser acesso aqui.

Do outro lado, a favor do desmonte, eu fui chamado para explicar a minha opinião. O texto segue abaixo. É importante salientar que, embora eu tenha uma opinião bastante pessoal sobre o que deve ser feito com a estrutura do viaduto (desmonte!), ainda acredito que a maior participação popular que define qual será o uso futuro. Eu tenho uma opinião pessoal, claro, mas será que ela é a melhor para a cidade? O texto vai bem na direção de tentar instigar ainda mais a discussão e envolver cada vez mais pessoas neste processo.

ENGODO URBANÍSTICO

Desde quando o Plano Diretor Estratégico de São Paulo foi aprovado no final de julho de 2014, seu artigo 375 tem causado polêmica em alguns setores da sociedade e polarizado discussões sobre a cidade que não são tão “branco no preto”.

O tal artigo define que o elevado Costa e Silva, mais conhecido como Minhocão, deve ser paralisado por meio de uma lei específica que já defina seu uso futuro, seja parque em cima de suas estruturas ou seja a demolição (ou desmonte) total ou parcial do viaduto.

A questão, porém, não é apenas sobre o que fazer com as estruturas (parque ou desmonte), mas sobre a cidade que queremos construir daqui para frente.

O Minhocão é um engodo urbanístico. Ele é uma cicatriz que a cidade carrega há mais de 40 anos, quando o então prefeito Paulo Maluf decidiu desengavetar um projeto –que já era criticado pela administração anterior à sua– para deixar um marco de sua gestão na cidade de São Paulo.

Um marco que causa até hoje problemas urbanísticos nos bairros do entorno e na saúde dos moradores dos prédios ao redor. Urbanistas o consideram uma armadilha para o tráfego, uma vez que quando se sobe em suas vias não se sabe quando se conseguirá sair, e que foi responsável pela degradação dos bairros e pela visível divisão social entre alto e baixo centro.

Realizar um parque em cima de suas estruturas é perpetuar um erro com o qual a cidade já está cansada de arcar. Pensar em uma estrutura de concreto como um parque é uma falácia.

Não deveríamos pensar em algo acima da gente. O que é preciso é pensar o que ocorre em nosso nível, onde a gente enxerga a vida.

Hoje, porém, a realidade é outra. Já está em tramitação na Câmara Municipal o projeto de lei nº 10/2014 que aprova o parque, sem nem ao menos terem sido feitas consultas públicas com a população local. O projeto, assinado por sete partidos políticos, foi criado muito antes de o Plano Diretor ter sido aprovado.

É uma forma de fazer política antiquada, que não envolve a participação da população local e da sociedade civil.

O que fazer com o Minhocão engloba decisões muito além do parque vs. desmonte. O debate precisa ser qualificado sobre a cidade que queremos, com um plano macro que contemple as singularidades –que são muitas!– da região.

O que vai acontecer com os moradores de classe média baixa que não são necessariamente os proprietários dos imóveis que habitam? Depois de anos convivendo com esse engodo, eles serão obrigados a sair por causa da especulação do mercado imobiliário?

O que vai acontecer com os moradores da Favela do Moinho, que, teoricamente, será soterrada pelo único projeto de alteração de tráfego na região, a Operação Lapa-Brás? Por que não pensar em um parque linear acompanhando as avenidas São João e Amaral Gurgel?

A reestruturação dos parques e praças já existentes na área só facilita o convívio entre os moradores e, de quebra, incentiva o comércio das fachadas ativas dos prédios na região.

Por isso, organizamos um Fórum (com atuação especial de Elisa Moreau) junto a vários gabinetes da Câmara Municipal para envolver a sociedade civil nessa decisão e, juntos, pensarmos como não sair de um engodo para se entrar em outro.

Durante o primeiro encontro agora em dezembro, soubemos que os defensores do parque tiveram uma reunião com o prefeito Fernando Haddad. Tentamos marcar uma outra audiência para mostrar a necessidade de participação popular, mas até agora ficamos sem resposta.

Será que ainda queremos perpetuar uma política de cima para baixo que não contempla os cidadãos?

THIAGO CARRAPATOSO, 30, jornalista, é colaborador do movimento SP Sem Minhocão!

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É neste prédio. É aqui que eles estão a prendendo. Pela porta principal, claro, seria impossível entrar sem causar muito alarde. Temos que achar alternativas. Você, que é menorzinha, suba pelo cano de ventilação e tente chegar à cobertura. De lá, a gente vê o que faz. Eu vou logo em seguida. Ei, você, qual é o plano? Quantos a gente tem? Certo, mas quem vai pela frente e quem vai por trás? E quantos são lá dentro? Certo, vocês vão com as facas pela frente e eu fico aqui para proteger a retaguarda. Se alguém sair ou entrar do prédio, eu garanto que não vai muito longe. Embora a gente não use armas de tiro, as facas resolvem muito bem.

Ei, você está bem? “Eu quase morri, escorreguei do tubo de ventilação. Foi por um milagre que consegui chegar aqui”, narrou. Ok, então, já vi que eu subir pelo tubo também não vai adiantar. Cadê o carro? Eles já devem estar prontos, temos que preparar a fuga. “A gente está precisando de ajuda aqui pela entrada principal, venha!”, pediram. Não, não vou. Não serei muito útil com poucas pessoas no time. Preciso que se tenha um grupo bem formado para invadir uma área apenas munindo facas. Aborte a parte da frente e vamos nos concentrar na parte de trás.

Elas chegaram. Bem na hora que o carro se aproxima. Coloque-a aí dentro e suma do mapa. Eu sairei andando e garantindo que está tudo tranquilo. Ei, por que você está cortando a sua garganta com um cutelo?! “Vai ficar tudo bem, só garanta que a polícia e a ambulância cheguem a tempo”. Mas que ideia estúpida! Eu sou criminoso e ainda tenho que chamar a polícia! Jogo o meu facão e ando pela rua com a maior cara de inocente. “Onde você está indo?”, pergunta a detetive que me para na calçada. “Estou só andando, deixe-me passar”. Ela não se convence, mas não tem provas para me deter. Viro a esquina e encontro duas viaturas da polícia. Aceno. “Hey, you need to go that way, there is a woman severely hurt in the street! Call an ambulance and go there!”, chamei, sem saber o porque da mudança de língua. “Are you part of PT or PSDB?”, indaga uns dos policiais. “Eu não tenho partido político, apenas sou”. E saí andando.

A detetive, porém, não queria me perder de vista. Senti que ela estava me seguindo a poucos metros de distância. Entrei correndo em um prédio com diversas escadarias. Em pouco tempo, a detetive me alcança e me detém. Droga de escadas e como ela consegue subir tão rápido? Ela deve ser muito veloz em obstáculos. Ela pega o seu rádio e chama mais uma viatura para me levar à delegacia. Todas as viaturas estão ocupadas. Ela discute com alguém e dá alguns passos para longe de mim. É a minha deixa. Saio correndo e subo várias, mas várias escadas em diversas direções. Depois, sabendo que ela não esperaria que eu descesse pelo outro lado, desço correndo desesperadamente, pulando degraus e, às vezes, lances de escada inteiros. Vejo um poste de ferro iguais aos que se têm em alguns bombeiros, e desço sem nem saber a extensão ou onde vai dar.

Caio dentro de um apartamento, com diversos beliches e muitas pessoas conversando. Caio sentado em uma das camas, onde uma menina loira e com cabelos não lavados, com uns 18, 19 anos, está sentada. Ela puxa papo como se fosse a coisa mais comum alguém aparecer no apartamento do nada. “Tudo bem?”. “O que é isto daqui?”, respondo. “É uma casa, onde a gente dorme”. “Quantos moram aqui?”. “Umas 20, 25 pessoas, dependendo do dia. A gente sempre está aberto a novos integrantes, como você pode ver” e aponta para cima. Vejo um buraco no teto por onde uma luz solar entra, deixando o ar muito mais leve. Uma criança negra, com olhos grandes, está no lado de fora do buraco, segurando em uma das grades vermelhas. “A gente é bem aberto.” “Quanto vocês pagam?”. “Ô, vai com calma. Respondo as perguntas tranquilamente, mas você não está muito bem não.” Não, não estou muito bem. Uma detetive está me seguindo, uma amiga acabou de cortar o pescoço com um cutelo e, aparentemente, faço parte de uma facção criminosa, mas nada disso eu posso falar contigo. “Eu, às vezes, sou bem pragmático. Desculpa”.

Acordei.

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Durante dois anos, me mudei para o norte do estado de Nova York para me dedicar ao meu mestrado em estudos curatoriais pelo Center for Curatorial Studies (CCS) na Bard College. O meu interesse como trabalho de conclusão foi discutir os mecanismos de controle usados pelo governo e pelo mercado imobiliário para manipular comunidades no espaço urbano. Como existem vários destes mecanismos, decidi me dedicar a um só: a nomenclatura de ruas e bairros. O princípio foi entender como uma simples mudança de nome pode afetar diretamente uma determinada comunidade e começar um processo de gentrificação rápido e insensível.

Para tanto, usei obras de quatro artistas de diferentes nacionalidades, gênero e idade para apontar sobre as plurais percepções sobre o espaço urbano e como ele interfere diretamente na vida que levamos nas grandes cidades. O meu ponto de partida foi um conto de Italo Calvino, presente no livro “Cidades Invisíveis”, em que ele descreve a cidade de Zaira, um lugar onde a navegação pelas vias se dá por meio da memória e do laço afetivo que se tem com a infraestrutura arquitetônica do espaço:

Inutilmente, magnânimo Kublai, tentarei descrever a cidade de Zaíra dos altos bastiões. Poderia falar de quantos degraus são feitas as ruas em forma de escada, da circunferência dos arcos dos pórticos, de quais lâminas de zinco são recobertos os tetos; mas sei que seria o mesmo que não dizer nada. A cidade não é feita disso, mas das relações entre as medidas de seu espaço e os acontecimentos do passado: a distância do solo até um lampião e os pés pendentes de um usurpador enforcado; o fio esticado do lampião à balaustrada em frente e os festões que empavesavam o percurso do cortejo nupcial da rainha; a altura daquela balaustrada e o salto do adúltero que foge de madrugada; a inclinação de um canal que escoa a água das chuvas e o passo majestoso de um gato que se introduz numa janela; a linha de tiro da canhoneira que surge inesperadamente atrás do cabo e a bomba que destrói o canal; os rasgos nas redes de pesca e os três velhos remendando as redes que, sentados no molhe, contam pela milésima vez a história da canhoneira do usurpador, que dizem ser o filho ilegítimo da rainha, abandonado de cueiro ali sobre o molhe.

A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata. Uma descrição de Zaíra como é atualmente deveria conter todo o passado de Zaíra. Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras.

Cada artista escolhido (Milton Machado, Claudio Bueno, VALIE EXPORT e Teresa Margolles) aborda diferentes pontos de como esta estrutura urbana interfere em nossa vida cotidiana. A cidade não é apenas um lugar para se morar, mas um sistema de fluxos, comunicações e controle que determinam inclusive a nova psicologia. Milton Machado, por exemplo, com o seu trabalho “História do Futuro”, demonstra com a sua figura do Nômade o movimento constante da sociedade em relação ao projeto ideal de uma cidade em constante construção. Claudio Bueno, por sua vez, demonstra as interferências que o digital pode provocar na fisicalidade do espaço sem nem ao menos precisar construir algo: tudo fica no plano virtual, acessível a qualquer momento. Já VALIE EXPORT, com suas performances no espaço urbano, questiona o quão agressiva é a arquitetura da cidade e como ela influencia no nosso processo psiquíco. E, por fim, Margolles aponta para as questões sobre imigração e fronteiras que existem entre países, por mais que elas cortem uma mesma malha urbana.

Para saber mais, publiquei no site da faculdade a introdução de meu mestrado. Ainda estou procurando uma publicação para divulgar a tese na íntegra, mas enquanto isso o capítulo inicial (em inglês ainda, mas em breve traduzo para o português) dá uma boa explicação sobre a pesquisa inteira. Junto ao texto, fiz uma exposição também com as obras dos artistas dentro do espaço expositivo de um museu. Embora não se dá para ter a real noção sobre como é o espaço, é uma bela documentação sobre o processo.

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Depois de anos, voltei às piscinas. Desta vez, não apenas como um aprendiz ou mero exercício aeróbico, mas sim um atleta de diversas modalidades que possuem a água como campo para suas atividades. Fazia parte de um time, de cerca de 8 participantes, que competia em um campeonato inter-clubes. Enquanto que para eles tudo era de extrema importância, para mim era apenas um hobby, algo que fazia por prazer embora que profissionalmente. Meu treinador era meu maestro em realidades outras.

Andando para ir à piscina, alguém tenta falar comigo. Eu estou rindo e me divertindo, seguindo meu treinador seríssimo, enquanto esta outra pessoa tenta me entrevistar e questionar sobre as minha táticas. Eu nem sei direito o que ela está falando, mas parece que eu sou a carta na manga do time, o atacante, o que resolve e classifica o time inteiro. Para mim, eu só vou lá e nado. Nada demais. Andando, percebo que é difícil entender o que a outra pessoa está falando. Quando vejo, estou com dois tampões de ouvido, um em cada lado, de acrílico. Retiro o esquerdo e vejo quão sujo ele está. Não é apenas cera produzida pelos meus tímpanos, mas algas, cartilagens, e outras coisas que me deixavam na dúvida se era do meu ouvido ou uma sujeira externa. De qualquer forma, me apresso a limpar antes que alguém repare, já com vergonha de toda a situação.

Meu treinador me escoltava para o vestiário de forma a garantir que eu me trocasse. Aparentemente, eu tenho a fama de chegar atrasado e não me importar muito. Mas como era uma competição séria, se eu me atrasasse não poderia participar. E ninguém queria isso. Acho.

Me troquei, corri para a piscina, o campeonato começou, participei de 5 das 8 atividades, ganhei 5 das 5 que fiz parte e bati o recorde no nado livre. Tudo bem tranquilo e sem se importar muito. Ganhar esta fase garantia que nós chegássemos na final, o que nunca tinha acontecido com o time antes. Mas ninguém comemorava como sendo uma façanha. Estavam todos muito concentrados com o que deveriam fazer e as expectativas foram trocadas por técnica e raciocínio lógico.

No dia da final, cheguei ao clube onde seria a competição e percebi que esqueci minha roupa de nado. Sem sunga, sem óculos, sem touca. Desespero. Conversei com o treinador e disse que poderia comprar uma na loja do clube. “É muito caro”, respondeu. “Quanto?”, “Uns R$ 150, R$ 200″. É, estava totalmente fora do meu orçamento gastar esta quantia com apenas uma sunga. “Não tem problema”, continuou o treinador, “eu preciso comprar uma outra sunga de qualidade e te empresto para hoje”. Resolvido. O problema: faltavam apenas 15 minutos para começar a competição e eu ainda nem tinha roupa de banho para entrar na piscina. Saí correndo em busca da loja e para achar a sunga. Não ia dar tempo. Já estava pensando em entrar de cueca mesmo e resolver o problema. Não podia, ia ser desclassificado. Quando eu cheguei na lojinha do clube, um gigantesco placar com luzes laranja, vermelha e verde marcava os pontos de cada time. Olhei o cronômetro: 3… 2… 1. Começou. Eu não poderia mais participar e meu time teve que ir à final sem mim.

Acordei.

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O Rio de Janeiro vai ser demolido inteiro.

Quando eu digo inteiro, é literalmente in-tei-ro. Só que o Rio não era apenas uma cidade grande de praia, pelo contrário. Era uma ultra-megalópole futurista cheia de viadutos e construções, com uma população gigantesca. Sua disposição, porém, era igual de Nova York, com uma ilha central e mais quatro distritos no continente. E todo mundo precisava ser evacuado.

A cidade seria reconstruída de forma ordenada e muito menos, digamos, orgânica. Foi o meio encontrado pelo governo para resolver os problemas urbanísticos da cidade e tentar criar uma cidade mais justa.

Hoje era o último dia de remoções e evacuações antes de a total implosão da cidade. Mesmo sendo o último dia, o governo resolveu implodir já algumas áreas e edificações antes da total remoção da população. O que se via e se ouvia pela janela do apartamento era um sequência de destruições e barulhos de bombas. E tudo era uma festa.

Desci à rua com um amigo para ver de perto como a cidade parcialmente demolida tinha ficado. “Eles deveriam ter colocado uma trilha sonora nos alto falantes públicos ao invés daquela voz chata mandando a gente fazer coisas”, disse-me um amigo ao lado de duas fontes com jatos d’água. “Como uma orquestra?”, perguntei. “Como uma sinfonia de Chopin”, respondeu.

Nenhuma festa está completa sem bebida. Voltei a casa de minha tia, que já tinha saído da cidade, para pegar alguma bebida em seu bar. Reconheci meu primo que há muitos anos não vejo. “Se você o contrário, nunca te reconheceria”, confessou-me. “Eu não esqueço minha família”, disse sorrindo. Entre as garrafas de destilados, só tequila. Não estava afim de celebrar com shots, mas sim com algo que pudesse degustar. Um bourbon, talvez. Procurando entre as garrafas uma família entrou no aparamento rindo e celebrando. Queriam ver se conseguiam achar algo interessante que foi deixado para trás. “Só vou pegar a minha garrafa e já vou sair”, avisei. Peguei uma garrafa de Red Label e disse para o meu primo que era melhor já sairmos da cidade.

Ao procurar os carros, reparei que os viadutos e as vias tinham trilhos, como se os carros fossem parte elétricos como trens e parte a combustível. Além disso, os veículos eram conectados em pares, sendo apenas possível trafegar com dois ao mesmo tempo, mas reduzindo o espaço consumido nas vias.

Ao entrar no viaduto que levava à saída da cidade, dava-se para ver os cemitérios de automóveis abandonados. Um verdadeiro horizonte caótico, como se tivesse ocorrido um grande desastre, se não fosse pelo clima de festa e felicidade das pessoas. No meio do trânsito, que estava muito menor do que a gente esperava, ambulantes vendendo garrafas de água por R$ 14. O engraçado é que os preços estavam escritos em chinês ou em inglês. “Será que alguém realmente compra por este valor? Estes imigrantes querem ser espertinhos”, disse rindo ao meu primo. Quando nos desvencilhamos do trânsito, uma super-rodovia com umas 10 pistas a nossa frente, com o sol no horizonte nascendo.

Sorri.

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E aí eu estava em um galpão gigante dividido em 10 salas bem retangulares, sem portas ou paredes na parte da frente e com um corredor interligando-as. Em cada uma havia centenas e centenas de alunos. As áreas de estudo, ao que me parecia, eram somente relacionadas às ciências exatas. Eu tinha a impressão que fazia parte da área de Matemática e estava fazendo algum tipo de prova ou exame. Me levantei e fui conversar com um professor de uma outra área, acredito que Física. Ao chegar lá, avisto uma professora e intelectual gritando com o professor com quem deveria falar. Ela, com seu 1,50m de estatura, rechonchuda, parecendo ter uma mistura indiana e caribenha, esbravejava que era um atento contra a liberdade proibirem sua pesquisa em Física por a classificarem como subversiva. Eu tinha a total certeza que não eram só subversivas suas teorias, mas também revolucionárias. O professor com quem eu deveria falar tentava acalmá-la e, nisso, me envolveu no meio da conversa para ajudar na situação. Nos direcionamos para uma sala envidraçada perto da classe número 1 para ter uma conversa mais privada. Gritos de “terrorista”, “traidora”, “morte” foram ouvidos durante o trajeto. Fechamos a porta. As paredes envidraçadas, então, se transformaram de concreto. E tiros, muito tiros podiam ser escutados. No lado de fora, começou uma guerra entre os professores e alunos considerados “terroristas” contra um grupo de governo repressor. Mais tiros. Muitos tiros de todos os lados. Sem conseguir resolver a situação dentro daquela sala minúscula, decidi sair para ver o que estava acontecendo. Balas passavam em minha frente formando linhas prateadas fulgazes. Ao meu lado direito, uma sala com a porta fechada onde estaria o grupo governamental repressor. Em um ato de total ansiedade para resolver a situação, arrombei a porta para vê-los e entender melhor a disputa. Vi, de relance, uma faixa preta com escritos brancos em um alfabeto que desconheço e escutei um grito de comando um segundo antes de ser alvejado por balas por todos os lados. Consegui sair da linha de tiro e fui caminhando em direção à saída. Uma escada com uns 25 degraus, onde algumas pessoas estavam esperando o conflito acabar, levava à saída. Ao subir os primeiros degraus, não resisti ao cansaço e deitei chorando, como se a ausência do medo era somente momentânea e que, depois dali, muita coisa ainda teria que ser feita.

Acordei por causa da força do choro.

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Desde quando surgiu a ideia de escrever o texto “I Make My Business With Bananas“, tento entender melhor o que significa ser brasileiro fora do país e o que o termo latino-americano engendra. Logo quando me mudei para os Estados Unidos, quando fui aplicar para tirar o CPF daqui, havia o campo para escolher de qual raça eu acreditava pertencer. Baseado na cor da minha pele, preenchi que era branco. A atendente, porém, lendo as outras informações do formulário, disse que eu teria que, necessariamente, preencher que era latino ao mesmo tempo. Brancos são apenas os que nasceram nos Estados Unidos.

Esta pequena anedota demonstra que há uma supremacia geopolítica cultural que, muitas vezes, foge do controle justamente das pessoas que estão envolvidas. Ao ver os trabalhos da exposição “Under The Same Sun: Art from Latin America Today“, que está aberta à visitação no Guggenheim aqui de Nova York, a questão que mais emergiu para mim é sobre o real significado do que é latino-americano hoje em dia. A concepção atual quase não tem mais a ver com a ideia de integração que se viu surgir em discussões sobre políticas internacionais, principalmente, nas décadas de 1960 e 1970. Hoje, na arte, ser latino-americano em um país como os Estados Unidos está mais ligado ao exótico e a exaustação de estereótipos do que, realmente, há uma unidade cultural.

Pensando nisso, fiz uma entrevista com o diretor do departamento curatorial e educacional do Bronx Museum, Sergio Bessa, para entender suas opiniões sobre o termo e sua relação com a produção artística da região. Sendo brasileiro e trabalhando em uma instituição cultural há mais de 13 anos, Bessa acredita que o termo foi cunhado por estadunidenses para englobar o processo colonizador no restante do continente. A entrevista foi publicada em um reportagem que fiz para o Opera Mundi, que você pode conferir aqui. Para ele, é impraticável misturar processos colonizadores tão diferentes – e produções artísticas, consequemente – em um mesmo termo. O espanhol e o português podem ser semelhantes, mas no fim não são a mesma língua. Pensando nisso, fica a pergunta: o que é ser latino-americano hoje em dia? O que o termo diz além de ser uma delimitação geopolítica? Isso não é só considerando a singularidade do Brasil, que tem uma colonização portuguesa e holandesa, mas as Guianas, o Suriname, o Equador, o México, os países do Caribe, e tantas outras diferenças histórico-culturais. Ainda faz sentido nos considerarmos latino-americanos, considerando a carga simbólica que o termo carrega hoje?

A teórica Doreen Massey, em um artigo, comenta sobre a “geometria do poder”, em que países industrializados exploram culturalmente outros de forma a preservar um ciclo que não os envolve. Para explicar o conceito, ela utiliza, inclusive, as favelas no Rio de Janeiro. Lá, a produção cultural emergente é explorada pelo mercado global (que não envolve países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos) literalmente copiando o conteúdo e não trazendo nenhuma retribuição à comunidade que o criou. Em vez disso, a comunidade explorada tem que se sentir orgulhosa por ser matéria-prima para os “grandes” do mercado. Assim, o status quo nesta hierarquia cultural é preservada e com a ilusão de que todos ganham.

Será que o termo latino-americano não estaria inserido nesta geometria do poder? Será que enquanto achamos que exaltamos a cultura local e tentamos criar uma identidade única não estamos nos alienando de nossos próprios processos?

As discussões sobre a identidade brasileira já é algo que, por si só, gera diversas discussões. A concepção da mestiçagem pelas três raças é constante em diversas obras, sendo inclusive parte de políticas públicas a partir, essencialmente, da década de 1930 (vale ler o artigo “Complexo de Zé Carioca: Notas Sobre Uma Identidade Mestiça e Malandra”, de Lilia Schwarcz). Se somos mestiços e antropofágicos, somos, claro, latino-americanos. Mas não só. E é essa diferença, essa singularidade, que cada vez mais me faz pensar que este termo deve ser problematizado e, talvez, ressignificado.

O que é ser latino-americano hoje em dia?

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