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O Ateliê 397 publica, vez ou outra, dossiês temáticos e convidam diversos autores para dar seus depoimentos e opiniões. Na segunda edição, sob o tema Ocupação, eu e Malu Andrade escrevemos um artigo explicando o que é o Festival BaixoCentro.

Reproduzo abaixo a minha parte, em que explico como os eventos em praças públicas tornam a cidade mais humana.

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Humanização Urbanística

Por Thiago Carrapatoso

Os movimentos recentes contra o sistema econômico atual, conhecidos como “occupy-algo” ou “ocupe-algo” (derivados de tantos outros movimentos, como os Indignados espanhóis ou a Primavera Árabe), demonstram que os cidadãos estão carentes de espaços para se expressar. A questão deixa de ser realmente o sistema macro para se tornar o micro, o vizinho, o que está muito próximo.

São Paulo é uma megalópole. É uma cidade horizontalmente vertical. As ruas parecem ser as únicas veias para que o ar flua e o vento faça com que a cidade respire e continue funcionando. Em uma vista panorâmica, se tem a ideia de que há um povo esquecido no meio de tantos projetos urbanísticos e condomínios de luxo. São Paulo, devido a suas proporções, tornou-se um emaranhado de construções, de obras, de prédios. Como pensar em uma identidade coletiva quando o cinza é o nosso vizinho, quando não se tem ideia de comunidade, mas apenas de pequenas bolhas fechadas às influências de fora? Não se sente o ar, não se sente o espaço para subjetividades. Tudo passa a ser concreto, cinza, institucional, grande, fechado. O micro e o sujeito ficam esquecidos. As reivindicações parecem ser muito mais do que apenas gritos contra governos ou sistemas econômicos. São vozes que querem reivindicar a própria voz.

Para piorar, as políticas públicas para áreas centrais da cidade são catastróficas. Situações sociais são falsamente resolvidas com aparato militar. Expressão de rua emergente, o grafite feito em pilastras ou paredes de um centro degradado é apagado com tinta bege. Construções históricas, tombadas por órgãos governamentais, dão lugar a apartamentos triplex com varandas gourmet que custam mais do que o trabalhador médio receberá em toda a sua vida. Segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento, 62% das famílias paulistanas não têm dinheiro para adquirir uma moradia própria[1].

Os cidadãos passam a acreditar que o que é público, financiado com dinheiro dos impostos pagos por eles mesmos, não é deles. As praças, as ruas, os órgãos públicos são geridos por políticas públicas cujas decisões parecem não fazer parte do cotidiano desse mesmo trabalhador médio que não tem dinheiro para pagar uma moradia, mas tem que arcar com tributos que chegam a 30% do valor bruto de seu salário. O medo de ocupar o espaço público dá lugar à ditadura do “pedir permissão”. Se um órgão público não autoriza, não se pode fazer nada nas ruas ou em lugar algum. O cidadão, já sufocado pelo concreto, sente-se preso por não compreender a máquina que rege a sua vida.

O Festival BaixoCentro demonstra que a vida cultural urbana não é feita apenas de instituições. Nosso intuito foi o de exemplificar que as leis já garantem o direito de ocupação, que não é necessário pedir autorização para órgãos públicos para organizar uma oficina de estêncil, um cinema ao ar livre ou um show em horário comercial em uma praça pública. Legalmente, as ruas e praças já nasceram como palcos para arte, como lugares de encontro e expressão. E isso é um direito do cidadão, só cabe a ele usá-las para dançar.

São Paulo precisa ser ocupada pelas pessoas, e não por concreto ou por políticas públicas opressoras. Os cidadãos precisam ter consciência de seu papel. Precisam sair da bolha casa-carro-trabalho-carro-casa-carro-shopping-carro-casa. Precisam entender que é bom sentir o vento de uma brisa formada pelos corredores dos arranha-céus. Precisam compreender que a arte não desaparece mesmo que as paredes sejam pintadas de bege. Precisam estar abertos a experimentar, por fim, uma cidade mais humana. O Festival BaixoCentro é um espaço para experimentar essa humanização urbanística. Vamos dançar?

Nota:

1. Fonte: Folha de S. Paulo, “Mais de 60% das famílias não podem comprar casa em São Paulo” (http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1089968-mais-de-60-das-familias-nao-podem-comprar-casa-em-sao-paulo.shtml)

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Qual a mudança que a arte eletrônica pode causar no espaço público? O que isso difere das mudanças provocadas por um trabalho de arte contemporânea tradicional? Quais as limitações que a arte tecnológica sofre e quais as interferências no significado sobre o que é o espaço público?

Para responder essas perguntas, um objeto se faz necessário: algo que se relaciona com o ambiente que se está inserido e traga um novo significado ao espaço público. Mas a cada trabalho, há uma singularidade. Cada objeto traz um novo tipo de relação, um novo tipo de questionamento e, consequentemente, um novo tipo de significado para o que é o espaço público ou a esfera pública.

Rosalyn Deutsche, em seu texto “Agoraphobia”, afirma que a luta entre classes é o que faz ativar a esfera pública. O espaço público só pode ser constituído graças às diferenças socio-econômicas e a constituição da esfera pública. Como ela diz:

“Democracy abolishes the external referent of power and refers power to society. But democratic power cannot appeal for its authority to a meaning immanent in the social. Instead, the democratic invention invents something eles: the public space. The public space, in Lefort’s account, is the social space where, in the absence of a foundation, the meaning and unity of the social is negotiated – at once constituted and put at risk. What is recognized in public space is the legitimacy of debate about what is legitimate and what is illegitimate. Like democracy and public space, debate is initiated with the declaration of rights, themselves deprived in the democratic moment of an unconditional source. The essence of democratic rights is to be declared, not simply possessed. Public space implies an institutionalization of conflict as, through an unending declaration of rights, the exercise of power is questioned, becoming in Lefort’s words, ‘the outcome of a controlled contest with permanent rules.’”1

Neste caso, o que importa é a luta de classes e a interrelação socio-econômica entre os cidadãos. Agora, como uma obra de arte pode ser relacionada a esse tipo de conflito? Uma obra de arte conseguiria ativar este significado? Quais os significados que uma obra de arte pode trazer para o espaço público?

Um texto de Miwon Kwon, publicado na revista sobre crítica de arte October, parece apontar para um possível caminho:

“Today’s site-oriented practices inherit the task of demarcating the relational specificity that can hold in tension the distant poles of spatial experiences described by Bhabha. This means addressing the differences of adjacencies and distances between one thing, one person, one place, one thought, one fragment next to another, rather than invoking equivalencies via one thing after another. Only those cultural practices that have this relational sensibility can turn local encounters into long-term commitments and transform passing intimacies into indelible, unretractable social marks – so that the sequence of sites that we inhabit in our life’s traversal does not become genericized into an undifferentiated serialization, one place after another.”2

Será a arte pública ativadora do espaço público? Será que ela por si só consegue dar significado a um determinado local? E como fica a relação entre os cidadãos e o espaço em que esta arte está inserida? É importante ressaltar que, em muitos lugares onde a arte pública é instalada, a comunidade no entorno não é consultada ou se quer pode opinar no trabalho do artista. Se a arte pública tem o caráter de ativadora do espaço público, como se deve dar essa relação com a comunidade local? E como fica a relação entre o artista e a comunidade?

Notas:
1 – Deutsche, Rosalyn. “Agoraphobia”. Evictions. 1998. pags. 273-274

2 – Kwon, Miwon. “One place after another: notes on site specificity”. October 80. Spring 1997.

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