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Capitalismo cognitivo: o tempo e o simulacro

As novas tecnologias não só modificaram as relações sociais entre os cidadãos, mas promoveram mudanças no sistema econômico e nas relações de trabalho. Termos como “capitalismo cognitivo” ou “terceiro capitalismo” surgem para tentar explicar como saímos de uma produção industrial para adentrar em uma focada na informação e no conhecimento. Hoje, não é mais o produto final, físico, que importa, mas sim o conteúdo que há por trás de cada ação realizada dentro do sistema e estrutura de trabalho. Não se está mais preso a uma empresa durante o horário comercial. Agora, pode-se trabalhar de casa, usando vias de comunicação diversas, em qualquer horário. Sua vida passa, então, a ser seu trabalho, sem distinção nem interferência direta de uma instituição.

No modelo anterior de trabalho, as empresas exerciam uma função paternalista em relação ao seus empregados. A “firma” deveria ser responsável por prover serviços e benefícios que conquistassem seus empregados e, assim, criar uma relação de interdependência: fica-se em uma empresa porque se tem um plano de saúde bom e festas de fim de ano, e a empresa ganha estabilidade de um empregado para explorar durante horário comercial. Em vez de o indivíduo buscar os serviços que lhe garantissem qualidade de vida, era a empresa que deveria ser a provedora desta relação. Desta forma, por prover não apenas o salário e projetar a imagem de que cuida de seus empregados, a companhia pode controlar e estabelecer o Tempo do contratado. Em outras palavras, a instituição para a qual se trabalha estabelece a hora que se acorda, a hora que se deve chegar na empresa, quanto tempo será destinado ao seu almoço e quantas horas por dia se poderá dedicar a outras atividades, incluindo o lazer. A empresa era responsável pelos fluxos de sua vida cotidiana em troca de estabilidade e benefícios. O tempo, aqui, é um mecanismo de controle de produção, uma forma para garantir que o empregado esteja pronto e trabalhando todos os dias.

O “terceiro capitalismo” [1] (que sucede o mercantilismo e o capitalismo industrial) dilui essa percepção temporal. A junção da vida privada com o trabalho, e a produção de trabalho imaterial, fazem com que não se tenha estabelecida a hora para se dedicar a um projeto ou quando ele deve terminar. O controle se dá por entrega, por finalização, e não mais pelas horas dedicadas à produção. O tempo passa a ser, novamente, responsabilidade do indivíduo, que tem que aprender a administrar e a usá-lo de forma diferente do que acontecia com o capitalismo industrial. Nesta estrutura, o lazer e o trabalho se misturam (o que alguns teóricos chamam de “capitalismo lúdico” [2]), o que faz com que o controle sobre o Tempo fique muito mais com o sujeito do que com a instituição. A empresa também perde o papel patriarcal, uma vez que o trabalhador não está mais apenas atrelado a uma única companhia, mas sim a várias, realizando diversos trabalhos simultaneamente.

Esta concepção de capitalismo não é homogênea para todas as regiões do globo. A produção de trabalho imaterial fica mais evidente à realidade do hemisfério considerado mais desenvolvido (Norte), enquanto a produção material (fábricas, indústrias) é desterritorializada e reterritorializada aos países considerados em desenvolvimento (hemisfério Sul). Desta maneira, o consumo dos trabalhadores do “capitalismo cognitivo” acontece em dependência com a produção em outras regiões. A realidade do sistema capitalista fica dividida, então, por diversos territórios e tipos de trabalhadores. Da mesma forma que o capitalismo industrial tinha a divisão por classes e não abarcava artistas e intelectuais neste sistema, o “terceiro capitalismo” não contempla de forma direta as relações de trabalho em fábricas na China, já que não é um trabalho imaterial que é produzido. Mas opera com dependência a esse sistema.

O conteúdo e informação produzidos, porém, atuam no tipo de consumo que o “capitalismo cognitivo” gera, o que se cunhou como “produto ideológico” [3], ou seja,

“If production today is direcly the production of a social relation, then the ‘raw material’ of immaterial labor is subjectivity and the ‘ideological’ environment in which this subjectivity lives and reproduces. The production of subjectivity ceases to be only an instrument of social control (for the reproduction of mercantile relationships) and becomes directly productive, because the goal of our postindustrial society is to construct the consumer/communicator – and to construct it as ‘active’.” (Lazzarato: 143)

A produção, então, fica na superestrutura, na concepção e fomento da ideologia. Um exemplo que demonstra a criação de conteúdo/conhecimento casada com a concepção/fomento da ideologia é o aumento na procura dos produtos orgânicos. O consumo, aqui, é ligado às informações e às imagens que há por trás de cada mercadoria, ou seja, o que aquele produto traz e diz sobre a vida do consumidor. O consumo não se dá mais apenas por necessidade, mas sim pelo valor agregado que cada produto pode trazer. E isso está atrelado ao conhecimento que o consumidor gera sobre o macro da indústria. Quantos mais produtos orgânicos se consome, mais conhecimento se aparenta ter sobre o funciona a produção de produtos industrializados. Os produtos orgânicos, então, são o erro no simulacro da vida cotidiana [4], que garantem que o sistema continue produzindo e induzindo a sua manutenção por meio do controle dos corpos [5] da população. A ideia de que aquele produto faz bem à saúde faz com que o sistema econômico continue rodando e camufla a relação capitalista de produção e consumo existente.

Desta forma, o “capitalismo cognitivo” é mais uma tentativa de preservar o sistema de exploração do trabalho, mas desta vez por meio do biopoder, da subjetivação do indivíduo e mantendo a produção na superestrutura.

Notas:
[1] Yann Moulier Boutang. “Cognitive Capitalism”, Polity Press. 2011

[2] Alexander Galloway. “The Interface Effect”. Polity Press. 2012

[3] Maurizio Lazzarato. “Immaterial labor”. In Paolo Virno, Michael Hardy, “Radical Thought in Italy: a Potential Politics”. University of Minnesota Press. 2006.

[4] Jean Baudrillard. “Symbolic exchange and death”. Stanford University Press. 1988.

[5] Michel Foucault. “Right of death and power over life”. The Foucault Reader. Pantheon Books. 1984.

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