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Experiências urbanas: a arte de hackear

E se, de repente, um relógio secular, parado há mais de 40 anos, começasse a funcionar? E se esse relógio estivesse em um dos prédios mais tradicionais da cultura francesa, onde diversas personalidades do país foram enterradas? E se a administração do local não fizesse ideia que havia um grupo trabalhando nas madrugadas para restaurá-lo?

Li recentemente um artigo na revista Wired sobre um grupo secreto francês chamado UX (Urban eXperiment, ou experiência urbana) que se auto-denomina “artista-hacker”. Eles querem restaurar, de forma anônima e sem pedir autorização, as partes invisíveis do patrimônio francês que o governo abandonou ou não se importa em manter. Foi com esse intuito que eles entraram secretamente no Pantheon, em Paris, durante meses para estudar a estrutura, levantar as peças necessárias e restaurar o relógio do século XIX que não funcionava desde 1960.

Para realizar as operações, eles possuem um mapa que demarca os túneis e tubulações que existem no subsolo parisiense. Eles os usam como meios de entrar nos prédios e como locais para organizar salas de cinema, exposições de arte e salas de aula. O grupo, que conta com cerca de 100 membros, possui diversas ramificações como cédulas, especializadas em cartografia, infiltrações, tunelamento, alvenaria, comunicações internas, arquivamento, restauração e programação cultural. São grupos independentes, mas que se ligam por essa vontade de reconstruir e restaurar objetos, sistemas e locais esquecidos pelas autoridades.

Uma das ações do grupo foi justamente o restauro do relógio.

(veja o vídeo aqui)

Depois de tudo feito consertado e restaurado, o grupo foi comunicar o feito ao administrador do Pantheon a ação, apenas para que ficasse ciente dos processos e pudesse dar continuidade à manutenção de forma adequada. O diretor, em vez de pelo menos agradecer, pediu para que um funcionário fosse ao relógio e retirasse uma parte do maquinário para que parasse de funcionar novamente. Além disso, processou o grupo por danos em 48.300 euros! O processo, claro, foi arquivado, pois não existem leis na França que proíbam o restauro de relógios quebrados.

Mas só essa ação já demonstra o quanto o grupo consegue subverter as políticas atuais e “hackear” o processo tradicional para, na teoria, fazer um bem para o patrimônio cultural da cidade. Outro aspecto interessante é que eles não fazem o que fazem por causa disso. É algo muito mais egoísta: apenas para ver até onde conseguem ir e fazer. Simples assim. No artigo da revista Wired, um dos integrantes do grupo tenta explicar melhor o que os motiva: “você tem plantas em casa? Você as rega diariamente? Por que você as rega? Porque se você não o fizer serão apenas pequenas coisas mortas”. É isso. Eles evitam que esses sistemas e patrimônios deixem de ser regados.

Já imaginou se um grupo brasileiro resolve restaurar os patrimônios culturais esquecidos pelos governos? Trabalho é que não faltaria…

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