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A coisa

Trouxe de lá para cá com a precisão cirúrgica de alguém com 1,80m só de braços. Acariciou a sua criação com seus dedos curtos e afiados, coçando as extremidades para tirar uma possível pulga nunca sentida. Suas tetas de 5 cm de cume de montanha olharam a criatura com pleno desdém. Os cabelos tão duros quanto conservadores, porém, apaixonaram-se ao serem mexidos de cá para lá enquanto ouviam os rangidos dos movimentos dos dedos. Não se pronunciava uma única palavra, pois elas não existiam. Tudo era muito preto no branco e branco no preto, e ao contrário.

O foco, contudo, era a criação, tão retraída e reprimida e sofrida. Ai, coitada. Até as pulgas nela são imaginadas. Doía só com os olhares de procura. Mas não achava, é claro. Era uma coisa.

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