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O futuro do pretérito

Em um pequeno meu apartamento, 14 pessoas se espalhavam pelos cômodos bebendo, conversando e gritando. Metade no quarto, esparramados entre a cama e a cadeira; e outra metade na sala, jogados por mesas e sofás. Muito barulho, muito eco, muita coisa reunida. Temi que alguém reclamasse, ligasse, separasse, multasse, por tantas pessoas em um espaço tão pequeno. Deitado, dormi. E sonhei.

Estava no treinamento de um pelotão do exército, comandado por uma general mulher, com cabelos curtos e ondulados, como se eu tivesse apenas 18 anos novamente. Estava com uma mala gigantesca nas minhas costas e achava curioso como a general chorava quando se sentia contrariada. O pelotão, então, decidiu ficar a postos, em posição de sentido, e relaxar contemplando em seu horizonte todos os quatro pontos cardeais. Eu, que cria ser tudo uma confusão e palhaçada, ao iniciar o exercício, olhei para pontos opostos do pelotão. Senti-me dançando a Macarena.

Ganhei, não sei de quem, um presente: um cupcake, enquanto estávamos alinhados em posição de sentido. A general foi indo para o lado oposto, e a fome foi me consumindo. Abri o pequeno bolo e dei a primeira dentada. O choro e o berro da general ecoaram pela sala. A sentença: expulsão.

Ao sair da sala do pelotão, ele estava deitado em uns puffs com algumas mulheres finlandesas, que tinham cabelos raspados nos lados, em uma espécie de moicano em formato de barco. Ele estava vestido à la bon vivant da década de 70 européia, com seus óculos estilo Ray-Ban, um terno de linho creme, camisa branca e alguns acessórios em ouro. Ele. Eu passei sem saber se o cumprimentava ou não. Voltei. Oi. E já ia indo embora, quando o chamei para tomar um café.

Conversamos. Muito. Sobre tudo. Em uma ansiedade comedida, porém prazerosa. Falamos. E o que ele estava fazendo por aqui? “A X-14 está presa”, e suas amigas finlandesas a estavam acompanhando. Ela era uma ativista hacker, que pregava novas concepções à sociedade com valores já antigos, participante do Partido Pirata europeu. Linda. E estava no Brasil. Mas de onde vocês se conhecem? “Ela é minha noiva”. E estranhei a felicidade que senti por ele. Ele merecia. Era o que ele queria. Nada mais justo. Foi aí que vi que o sonho era uma construção do futuro do pretérito.

Acordei.

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