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Web: a neutralidade da rede e a mania por aplicativos


A discussão sobre o uso livre da internet está ganhando novas versões e lados. Cada vez mais, a questão da neutralidade da rede tem tomado grande parte dos debates entre os defensores da liberdade e os legisladores de políticas públicas que envolvem o ciberespaço.

Quando se fala em neutralidade significa que a rede deve continuar assim como você a conhece hoje, sem interferência do provedor de acesso. Há grandes corporações e governos interessados em tanto monitorar o seu acesso pela rede (como saber quais links você envia por e-mail ou quais sites você costuma acessar diariamente), quanto reduzir a velocidade de sua conexão a sites ou serviços prestados por empresas concorrentes. As leis referentes ao mundo digital por vezes são falhas, e há muitas discussões para que a regulação venha por um marco civil – e não leis duras e diretas que não compreendem a lógica da rede.

Descrevendo assim parece algo óbvio a se defender e que é estranho imaginar que governos são a favor da não-neutralidade da rede. Mas alguns são, como demonstram diversos países que criam recursos para barrar que haja troca de arquivos entre pares na internet como um mecanismo contra a pirataria. Monitorar o acesso de qualquer usuário quebra a neutralidade e faz com que a rede seja tendenciosa, sendo possível apenas usufruir de alguns serviços escolhidos por órgãos superiores.

O inventor da World Wide Web (sim, o “www” que vai antes de qualquer endereço na internet), Tim Berners-Lee, escreveu um artigo que aborda a neutralidade do meio como exemplo para ser contra o desenvolvimento de aplicativos para smartphones ou tablets e o isolamento das informações em redes sociais (como o Facebook). Segundo o texto “Long live the web” (ou longa vida à web, em tradução livre), os aplicativos para celulares e tablets estão criando nichos de informação na rede, ou seja, o conteúdo disponibilizado por eles fica isolado neles mesmos, não sendo possível compartilhá-lo com outros amigos que não possuam o programa ou indexável aos mecanismos de busca. No fim, é como se o conteúdo não estivesse lá.

Esse artigo parece uma resposta a um texto escrito pelo editor-chefe da revista Wired, Chris Anderson, intitulado “The web is dead” (a web morreu), em que anuncia que outros serviços da internet são mais usados do que a própria web, disponibilizados facilmente por aplicativos. Lee, por sua vez, defende que a internet deve ser livre, com as informações possíveis de ser compartilhadas facilmente, principalmente por meio do www.

Colocar informações importantes em aplicativos pode ser um tanto quanto assustador para o inventor do www, mas seria o mesmo que, em vez de disponibilizar tudo online, o autor decidisse publicar em livro. As informações não seriam indexáveis, não estariam em um banco de dados, mas acessível a pessoas que gostariam de pagar por aquele conteúdo. Os aplicativos são apenas mais uma outra forma, um outro meio, de disponibilizar o que se quer passar.

O criador da web, realmente, tem argumentos interessantes, principalmente quando diz que até a invenção de remédios contra doenças como o Alzheimer poderiam ser criadas graças ao gigantesco banco de dados que é a web. Verdade. Quanto mais compartilhamos, mais facilmente estimulamos a inovação e as novas descobertas.

Para amenizar, seria muito mais fácil se todos que desenvolvem conteúdos para aplicativos também publicassem online, para que a escolha final de como fruir as informações seja sempre do usuário/leitor.

Mais fica uma bela lição: colocar informações online significa que elas estão em rede, acessíveis pelo mundo inteiro, e que podem ser usadas, inclusive, para se descobrir a cura para doenças.

Imagem tirada por Max Braun. A placa está nos escritórios onde Berners-Lee criou o www.

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